Quinta, 23 de Novembro de 2017
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Imagem:Priscila Foroni/Gazeta do Povo (colorida)

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O Veterano Lucidio Chaves em dois momentos: hoje aos 101 anos em sua casa e na Itália aos 40 anos

 

Original editado em 19 de Dezembro de 2004
Gazeta do Povo - Curitiba - PR

Um exemplo de longevidade: é assim que Lucídio Chaves era conhecido na época da Segunda Guerra Mundial, segundo o major-brigadeiro Rui Moreira Lima, na época um dos jovens pilotos brasileiros que combatiam na Itália. O "lhama peruana", como os colegas o apelidaram, é o mais idoso veterano de guerra do Paraná e completou 101 anos na última quinta-feira. "Precisa mesmo viver muito para fazer tudo o que eu fiz", conta Chaves.

O apelido surgiu no Panamá, onde o 1.º Grupo de Aviação de Caça (GAvCa), a unidade dos pilotos brasileiros na guerra, fazia treinamento em 1944. "Os soldados achavam que eu parecia com o pessoal dos Andes", diz Chaves, hoje capitão da reserva e portador da doença de Parkinson. O então 2.º tenente de Comunicações queria mesmo era ser piloto de guerra – sabia voar desde a década de 20, fazia acrobacias e trabalhou no Correio Aéreo Nacional –, e foi assim que se apresentou ao comandante Nero Moura. O diálogo entre os dois está reproduzido no livro escrito por Ceci, filha de Chaves:

"Escuta, tchê, não estás muito velho para ires à guerra?", perguntou o gaúcho Moura.

"Não, major, eu só tenho quarenta anos e estou em perfeita saúde", respondeu Chaves.

No fim, Chaves não pilotou aviões como desejava, mas se tornou um dos homens-chave de Moura, que aproveitou os talentos do tenente na área de comunicações. Quando as antenas ou os rádios dos aviões P-47 eram avariados, a equipe de Chaves fazia os reparos. "Era um trabalho essencial. Se o rádio de um piloto parasse de funcionar durante a missão, ele tinha de voltar", conta Moreira Lima. O brigadeiro lembra que o aproveitamento dos rádios VHF dos aviadores era de 100%.

Não foi só na área de comunicações que o "lhama peruana" mostrou desembaraço. "Ainda nos Estados Unidos, o oficial do rancho se suicidou. Virei tenente de rancho, sem saber nada de cozinha", conta. Teve de aprender, e foi bem-sucedido no combate a 16 moscas encontradas no refeitório e na preparação de uma feijoada em pleno solo ianque. Não precisou exercer a função na Itália, mas ainda assim deu sua colaboração: "tínhamos sorvete em pó, mas o único gelo que havia era o da neve. Achei uma máquina de fazer sorvete nos escombros de um prédio em Pisa e o gás freon eu consegui com nossos amigos ingleses". O "gelato" de Chaves foi sucesso total.

O tenente aproveitou as folgas durante a guerra para conhecer personalidades como o papa Pio XII, no Vaticano, e o rei Farouk, do Egito, com direito a show de dança do ventre. "Ele era capaz de quase tudo por causa de um rabo de saia", lembra, rindo, Moreira Lima. "Mas deixava a farra de lado por um amigo. No Natal de 1944, eu estava deprimido, com saudade da família. O Lucídio me levou pra um passeio, para me animar", diz o ex-piloto.

Voltando da guerra, Chaves continuou na Aeronáutica até 1949. Apesar de formado em Medicina (em 1938), trabalhou por décadas como engenheiro eletrotécnico. Dirigiu carros até os 90 anos, e há pouco tempo deixou de participar dos encontros de veteranos, mas os amigos não o esquecem. "O brigadeiro Rui é um dos que sempre telefonam", conta Ceci. Moreira Lima resume a importância do trabalho de Chaves: "o leigo vê o piloto de guerra como um semideus, porque somos arriscamos a vida nas missões. Mas não fazíamos nada sem o pessoal de apoio."

NOTA: Gostaríamos de agradecer imensamente ao apoio dado por Carlos Alberto Nester, filho do Veterano Raphael Nester; e da Direção da Gazeta do Povo, de Curitiba que nos cedeu gentilmente o direito de reproduzir este texto na íntegra.