Sábado, 18 de Novembro de 2017
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Imagem:Luis Gabriel

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Avião usado pelo Ten. Aurélio em sua última missão - 22 JAN 1945
P-47D-28-RE (USAAF s/n 44-19666) originalmente da Esq. Amarela

 

Rio de Janeiro, 05 de Março de 2005.

Passados 60 anos do falecimento do Tenente Aurelio Vieira Sampaio, haviam ainda algumas lacunas na história desta sua última missão. Através de um trabalho de pesquisa minucioso e muito bem conduzido, o Eng. Aeronautico apaixonado por história da aviação Raffaele Serio, nos conta, desde a Itália, com exclusividade para o Sentando a Pua, sobre os últimos momentos deste piloto brasileiro.

"Em 22 de janeiro de 1945 a ordem de operação do 350th FG previa o envio de oito aviões – duas esquadrilhas (flights) de quatro aviões cada – para atacar um depósito de combustíveis e munição nas proximidades de Pizzighettone (Cremona), referência no mapa K-686301 (objetivo primário): a tarefa é entregue ao 1º Grupo de Caça, e será sua 178ª missão.

A atividade dos meses anteriores, com a perda de seis pilotos tinha, sem dúvida, reduzido a disponibilidade deles no 1º GAvCa: isso é contornado através da inclusão nas missões de combate alguns oficiais voluntários, originalmente não admitidos como pilotos mas qualificados como controladores de vôo, e que são submetidos a um rápido curso de adestramento no Thunderbolt e portanto declarados aptos a missões de guerra. Um deles foi o tenente-aviador Aurélio Vieira Sampaio, que de aqui em diante será protagonista desta história: nascido em 31 de maio de 1923 na cidade de Aracaju (capital do estado de Sergipe) no nordeste do Brasil, filho de Lauro Sampaio e Consuelo Vieira Sampaio, foi designado para a esquadrilha Azul do Grupo de Caça e cumpre sua primeira missão de guerra na Itália em 18 de dezembro de 1944. Oficial atrevido e determinado, pede e consegue combater como piloto de caça, submetendo-se voluntariamente a riscos sem sombra de dúvidas muito maior do que aqueles que correria na sua função original. Aquele 22 de janeiro será sua 16ª e última missão, efetuada nos comandos de um caça-bombardeiro P-47D-28-RE matrícula 44-19666, com o vistoso B6 impresso sobre a capota do seu motor e pertencente à Esquadrilha Amarela.

Às 13:25 oito caça-bombardeiros P-47D Thunderbolt pertencentes às esquadrilhas Vermelha e Azul decolaram de Pisa sob o comando do Capitão Laffayette Cantarino Rodrigues de Souza; cada avião armado com duas bombas detonantes de 500 libras (227 kg) e oito metralhadoras ponto 50 com 1920 projéteis; os pilotos participantes são Lafayette, Armando, Torres, Keller (vermelha) e Horácio, Aurélio, Correia Netto e Prates (azul).

Os aviões superaram os Apeninos em formação mantendo uma cota de 12.000 pés (uns 4.000 metros), e baixam sobre a planície do vale do Pó; o tempo apesar do inverno, é esplêndido, com visibilidade ilimitada. Às 14:15, ao avistar o alvo principal, o depósito de combustível e munição de Pizzighettone, os aviões saem da formação e efetuam o ataque picado individual, lançando as bombas de 3.000 pés (uns 1.000 metros). Resultados; doze bombas destroem cinco edifícios destinados a armazéns na zona meridional do depósito, as bombas lançadas pelo Aurélio atingem um destes, na margem do rio Adda; duas bombas interrompem a linha férrea neste mesmo ponto, outras duas destroem um par de edifícios na margem deste rio dentro da área do alvo, como mostrado na foto nº. 60-503 tirada depois do ataque.

As duas esquadrilhas assumem um perfil de vôo à baixa altitude, dividindo-se em quatro seções de dois aviões cada, distanciadas umas das outras, e como de costume saem em busca de objetivos secundários de oportunidade em áreas pré-estabelecidas, para atacar em vôo rasante com fogo de metralhadora. A missão prossegue assim até Piacenza e depois se desvia para o Norte, seguindo a ferrovia em direção de Lodi. Chega portanto à periferia leste de Milão, avistando a zona da estação e do entroncamento ferroviário de Lambrate e Limito, ao longo da linha Milão-Veneza.

O straffing dos alvos ocasionais localizados pelos aviões consegue, por volta das 14:30, destruir um pequeno automóvel, surpreendido numa estrada nas proximidades de Lodi, e um trator nas vizinhanças de Piacenza. Sobre Piacenza também é encontrada antiaérea ligeira e pesada, porém esparsa e imprecisa.

Na zona de Milão os pilotos observam um modesto tráfego de veículos motorizados, e sem dúvida os atacam, entre as 14:30 e 14:45, danificando um veículo de comando e um caminhão na área urbana oriental de Milão, enquanto para os lados de Pioltello destroem um caminhão e uma locomotiva de um trem descoberto na ferrovia Milão-Veneza, nas proximidades da estação de Limito. Este último ataque ao comboio ferroviário é realizado pela seção de dois aviões comandados pelo Capitão Horácio Monteiro Machado, cujo ala é o nosso tenente Aurélio Vieira Sampaio: os dois aviões avistaram o trem enquanto voavam na sua direção após o sobrevôo sobre Pioltello, manobraram para se colocar em melhor posição de tiro, para atingir o flanco da vulnerável locomotiva. Portanto o líder, seguido de perto pelo ala, efetua uma ampla curva na direção sudoeste sobre as granjas de Rodano. Infelizmente a manobra leva os aviões a sobrevoar uma posição antiaérea alemã camuflada, situada em um campo perto do "Portico dell'Occa"; para camufla-la, sobre a mureta que sustenta o pórtico ao norte, os alemães haviam pintado uma típica cruz vermelha dentro de um painel branco, indicando por convenção internacional a presença de uma estrutura hospitalar fixa. A guarnição, tirou rapidamente a camuflagem e tomou posição, abrindo fogo sobre os desavisados Thunderbolts, o primeiro deles já disparando contra a locomotiva. O líder (Horácio), que atacava primeiro e foi surpreendido, trata de sair dali interrompendo o straffing (provavelmente com o avião ligeiramente danificado pelo fogo antiaéreo). O tenente Aurélio ao contrário, sobrevoando em seguida a mesma zona, entra em tiro espesso e preciso da metralhadora antiaérea, já ajustada depois da passagem do primeiro caça. Atingido no motor, cai no território de Rodano chocando-se próximo a fonte Testone pertencente à Granja Briavacca; o jovem piloto perde a vida na explosão e no incêndio a seguir de seu avião.

Logo depois no lugar da queda chegam soldados alemães e milícias italianas da Guarda Nacional Republicana (GNR): devido à importância do fato, os destroços do avião são recuperados, enquanto o corpo do piloto, identificado pela dog-tag que cada militar leva consigo em combate, é enterrado em 26 de janeiro de 1945 no cemitério da fração de Cassignanica (cova nº. 43), por disposição do oficial de estado civil de Rodano, Mario Bergamaschi. Do atestado de óbito, redigido então pelo Dr. Arnaldo Lepore, ressaltamos: “... no ano de 1945 a 21 (sic, leia-se 22) de janeiro às 14:30 horas, mais provavelmente alguns minutos depois nas proximidades da Granja Briavacca de Rodano, morreu devido à queda e o incêndio do avião o aviador brasileiro Aurélio Vieira Sampaio B.O 388 T.44-O.C como constava na placa de identificação localizada junto ao corpo, de idade aparente de vinte e cinco anos....”.

Os efeitos do incêndio provavelmente consumiram grande parte da estrutura em liga de alumínio, deixando como partes restantes o grande motor Pratt & Whitney R-2800-59 "Double Wasp" e o turbo compressor General Electric "Type C" situado na parte posterior da fuselagem, muito parecido a um segundo motor para olhos não especializados. Portanto o avião abatido foi erradamente avaliado como bimotor pelos milicianos da GNR. Como de fato foi encontrado genericamente identificado em um documento oficial da República Socialista Italiana, um informe datado de 23 de janeiro de 1945 do Ministério do Interior – Prefeitura Republicana de Milão – Comitê Provincial de Proteção Antiaérea – Prot. N. 2395-120/PA/I, sobre os bombardeios aéreos ocorridos no território da província de Milão. Lê-se sobre o episódio: “... às 11 horas em verdade mais tarde, por volta das 14:30 na cidade de Lodi mais precisamente na localidade de Isola Maggiore foi metralhado e incendiado um veículo motorizado. Lamentam-se os feridos. Na parte da manhã e da tarde aviões hostis metralharam repetidamente a zona central e a periferia da cidade de Milão, danificando caminhões e algumas casas de moradia. Nenhum dano ocorreu às pessoas. Às 14:30 aviões inimigos na cidade de Pioltello efetuaram ações de metralhamento que destruíram um caminhão e lançaram duas bombas explosivas (nos documentos aliados não há indicação de lançamento de bombas no alvo secundário) que atingiram uma casa de colonos causando ferimentos em duas pessoas..... No território da cidade de Rodano às 15:15 um avião inimigo bimotor caiu e matou a tripulação (esta última nota certamente diz respeito à queda do P-47 do Aurélio, único avião aliado perdido na área de Milão naquele dia)....”. Vale ressaltar que tais detalhes, especialmente sobre a hora, as modalidades e ao efeito das incursões, não raramente foram bastante imprecisos: entretanto em comparação com o Daily Report brasileiro se podem notar várias coincidências.

No “Diário de Guerra de um Piloto de Caça”, escrito pelo Cap. Roberto Pessoa Ramos (também pertencente ao 1º GAvCa), sobre a data de 22 de janeiro de 1945 se observa a seguinte anotação: “Aurélio foi abatido em Milão. Horácio que estava voando com ele, estava atacando uma locomotiva quando o ouviu falar pelo rádio ‘estou caindo, fui atingido por ponto 50!’. Olhando para trás viu que saía muita fumaça da capota do motor do Aurélio, e comunicando-se pelo rádio mandou que ele saltasse de pára-quedas. Aurélio tinha que puxar o manche para si como forma de ganhar altura para o salto, o avião respondeu mas não por muito tempo e logo perdeu altitude, se chocou com o solo e incendiou-se. O capitão Lafayette, no comando da missão ficou com tanta gana de vingar o amigo abatido que acabou por se precipitar ao fazer um straffing que acabou batendo com a ponta da asa em um árvore.” Este fato está confirmado no “Daily Operations Report-1st Braz. Sqd.-Mission No.178" (versão americana). Na parte onde são detalhadas as perdas de aviões (Own Aircraft Losses-Cause-Crew Casualties), observamos que outros dois aviões da esquadrilha foram danificados ligeiramente (danos CAT I) sem conseqüências para os pilotos: o P-47D-27-RE matricula 42-26778 do Cap. Horácio (líder da esquadrilha Azul, e voando no C2) por obra da antiaérea inimiga, e o P-47D-27-RE matricula 42-26784 (A1) com avarias causadas por um choque contra uma árvore durante um straffing a baixa altitude, certamente o avião do Cap. Lafayette (líder da esquadrilha Vermelha e comandante da missão), como havíamos visto antes. E o avião P-47D-28-RE matrícula 44-19666 (B6), foi destruído por obra da antiaérea ligeira inimiga (Flak) com a perda do piloto, sem sombra de dúvida o Thunderbolt do desafortunado tenente Aurélio. Além disso, na parte onde são detalhadas as observações de Flak (Type Flak-Accuracy-Intensity-Location) está indicada a presença de fogo intenso e preciso de armas leves e de metralhadoras na posição K-355646 (45°28'34"N/9°19'50"E), que corresponde exatamente a um ponto entre Pioltello e Rodano, nas proximidades do cruzamento entre a estrada provincial 182 e a estrada estadual Rivoltana; deve ser lembrado que nem sempre os pilotos conseguiam, devido ao stress do combate, identificar com precisão os locais sobrevoados.

Os sete aviões restantes da formação, não sem antes fazer nova observação de uma intensa e precisa reação de antiaérea ligeira próximo a Treviglio, retornam à base por volta das 15:30, depois de haver lançado 16 bombas e disparado 6.880 projéteis de metralhadora ponto 50, de um total de 15.360 projéteis. Amargurados pela perda do seu companheiro, os pilotos são rapidamente interrogados durante o debriefing (reunião pós-missão) com o oficial de inteligência, tenente Miranda Corrêa, que recolhe as informações e redige o "Daily Operations Report", que hoje nos permite junto com outros documentos reconstruir os eventos.

Na sua breve carreira de piloto o tenente Aurélio Vieira Sampaio foi condecorado com a Cruz de Bravura, Cruz de Sangue, Cruz de Aviação Fita A e B, Medalha da Campanha da Itália, Medalha do Atlântico Sul e Air Medal (USA). No pós-guerra, seu corpo foi transladado de Cassignanica para o cemitério brasileiro de Pistóia e hoje repousa no Brasil no mausoléu do Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro."

Agradecimentos
Às seguintes pessoas gostaria de expressar meus profundos agradecimentos pela colaboração: Luis Gabriel; Giuseppe Versolato; Roberta Oppio; cidade de Rodano; Cesare Muratore; seção de pesquisa histórica de Rodano; biblioteca pública de Rodano; Ernesto Marazzi e família; Manuela Ponissi e Achille Rastelli

Sobre o Autor:
Raffaele Serio nasceu em 1961 e por muito tempo viveu em Erba; casado, reside atualmente em Asso (Como). Engenheiro Aeronáutico, trabalha na società Aermacchi SpA di Venegono Superiore (Varese), colaborando no desenvolvimento do novo avião militar italiano de treinamento avançado M-346. Apaixonado pela aeronáutica e história da aviação, realiza pesquisas de arquivos para reconstruir os bombardeios aéreos que foram realizados contra a província de Como durante a Segunda Guerra Mundial.

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