Domingo, 19 de Novembro de 2017
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Dr. Adriano Rossi
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Vista aérea da Corte Costa Nuova

Desde setembro de 1944 os alemães utilizaram a “Corte Costa Nuova”, próximo a Ghisiolo como oficina mecânica e estacionamento para veículos motorizados alemães; eles estacionavam durante o dia em alguns espaços ao redor da Corte já que os deslocamentos diurnos eram demasiados perigosos devido a intensa atividade aérea aliada que atacava tudo que via ao longo das ruas e estradas, por isso os deslocamentos eram realizados durante a noite, com ajuda da névoa. A regra era esta: de noite chegavam rebocados os veículos danificados para serem consertados e ao mesmo tempo partiam os já reparados, enquanto de dia eram feitos os reparos.

A oficina estava instalada num barracão de madeira localizado próximo à entrada da Corte e os alemães o encheram de pneus e peças de reposição; ali eram realizados reparos em caminhões, meias-lagartas e sidecars e era proibido aos civis italianos se aproximar.

Os veículos militares ficavam agrupados nos três lados do perímetro externo da Corte e ao longo de um caminho arborizado que saía do lado nordeste da fazenda e que oportunamente foram revestidos por panos miméticos para oculta-los da visão aérea.

O destacamento de militares alemães era composto inicialmente por uns 30 a 35 homens no primeiro grupo, e utilizaram como dormitório a capela que ficava no lado leste do prédio principal da Corte, de onde retiram seus bancos. O segundo grupo de militares, que chegou para substituir o primeiro depois de uns três meses, era composto por uns 20 militares e estes, ao invés de usar a capela como dormitório, foram “hospedados” pelas numerosas famílias (24 ao todo) de camponeses que viviam na Corte. A relação entre os militares e os camponeses era cordial e de confiança mútua, não houve nenhum episódio de tensão entre eles, cada um fez o seu trabalho; os alemães cuidavam de seus veículos militares, os camponeses trabalhavam nos campos, tudo de modo tranqüilo e sob alguns aspectos, natural.

A Sra. Ida Rossetti lembra: eu e minha família vivíamos próximos à Capela e durante o período de permanência dos militares nós hospedamos um sargento alemão chamado Fritz. Recordo um episódio curioso: o suboficial alemão, um homem de cabelos vermelhos que por esta particularidade nós o chamávamos de “suboficial vermelho”, na noite de Natal de 1944 visitou todas as famílias para desejar Bom Natal. A coisa mais incrível é que ele estava vestido de Papai Noel igual àqueles que vemos nos filmes ou nos anúncios, talvez nunca saibamos onde ele encontrou aquela vestimenta. Ainda nesta ocasião o suboficial estava fumando seu cachimbo e quando foi entrar em nossa casa para nos desejar Feliz Natal ele bateu involuntariamente com o cachimbo contra a porta, engolindo metade do cachimbo; nós rimos muito da cena ridícula e o fizemos porque tínhamos certa confiança no suboficial, ele por sua vez ficou muito bravo e xingou em alemão porque havia machucado a garganta.

QUEM BOMABARDEOU A "COSTA NUOVA"

Embora muito se saiba do bombardeio, pelo testemunho de várias pessoas que habitavam a “Costa”, nada se sabia sobre quem realizou o bombardeio; qual foi a esquadrilha, qual sua nacionalidade, que tipo de aviões, etc., perguntas estas que agora são possíveis de responder.

Em fevereiro de 1945 no aeroporto de Pisa estava o 350th Fighter Group da USAAF composto por três esquadrões e o 1º Grupo de Caça brasileiro com quatro esquadrilhas, identificados pelas letras A, B, C e D e equipadas com 68 aviões Republic P-47 Thunderbolt.

Na manhã de 10 de fevereiro de 1945 foram preparados quatro aviões do 1º Grupo de Caça brasileiro, a missão, a de nº 213 previa a decolagem de quatro aviões P-47 da esquadrilha azul carregados com duas bombas de 500 libras (227 kg) cada um, bombardear o objetivo que era uma ponte ferroviária a nordeste de Treviso, depois voltar na direção de Mantova buscando pelo caminhos alvos de oportunidade e finalmente retornar a Pisa.

Os quatro aviões brasileiros decolaram de Pisa às 09:00 e chegaram sobre o objetivo às 10:00, depois de bombardear a ponte ferroviária se dirigiram para Treviso e realizaram um sobrevôo de reconhecimento sobre a malha ferroviária e sobre o aeroporto, depois rumaram na direção de Mantova. Ao se aproximarem de Mantova, por volta das 10:30, os quatro aviões sobrevoaram a “Corte Costa Nuova” os pilotos perceberam que havia algo de estranho em terra, então eles fizeram uma volta e retornaram para avaliar melhor. Sobrevoando a baixa altitude sobre a Corte se deram conta da concentração de veículos militares cobertos por camuflagem, fizeram algumas passagens atirando com as metralhadoras, e destruíram três veículos militares e danificaram seis, em seguida voaram na direção de Mantova em busca de novos alvos e finalmente retornaram para Pisa. No trajeto de volta os aviões comunicaram à base que haviam visto uma grande concentração de veículos militares alemães e informaram as coordenadas do novo objetivo a atacar; enquanto isso eram preparados em Pisa oito aviões do 1º Grupo de Caça brasileiro para a nova missão, que será a de nº 214 . A esquadrilha que retornava pousou às 11:45 e os pilotos, tão logo saltaram de seus aviões, conversaram com os aviadores que dali há pouco estariam decolando para bombardear a “Costa Nuova”, explicando a eles o que haviam visto em terra e indicando pontos de referência que poderiam lhes ser úteis no bombardeio. Às 12:05 os oito aviões da missão 214 decolaram de Pisa; quatro da esquadrilha vermelha: Kopp, Eustórgio, Keller e Meneses e quatro da esquadrilha verde: Lagares, Tormin, Torres e Canário. Os aviões levavam duas bombas cada, sendo que quatro deles com bombas de 500 libras tipo GP (explosivo convencional) e quatro com bombas do tipo FTI (Napalm).

Depois de 40 minutos de vôo, às 12:45 os aviões chegaram na “Costa” e, depois de sobrevoa-la para avaliar que alvos seriam atacados os quatro aviões carregando as bombas GP se separaram do restante da formação e baixaram a altitude para poder bombardea-la: os aviões chegaram pela rota sudoeste/nordeste e passando em diagonal sobre o curral maior liberaram as bombas: seis atingiram o estábulo, a oficina alemã, o laticínio, as moradias do administrador e do carreteiro, enquanto outras duas foram liberadas na direção do moinho, mas que não foi atingido, e as bombas acabaram por cair no canal Alegrezza; as bombas ao explodir romperam os diques e o canal transbordou, inundando boa parte da área ao redor. Os outros quatro aviões lançaram as bombas de Napalm sobre os veículos alemães.

Os oito aviões, em intervalos, logo começaram um longo, interminável ataque com metralhadoras aos veículos militares alemães, que eram cerca de oitenta, e após várias passagens o parque de veículos motorizados ficou quase que totalmente destruído ou danificado.

Durante o ataque com metralhadoras o suboficial alemão, sem se preocupar com os aviões que passavam rasante sobre sua cabeça, estando ele no meio do curral disparou com um fuzil-metralhadora contra os aviões brasileiros.

O bombardeio e o ataque com metralhadoras duraram 25 minutos e além das oito bombas de 500 libras foram disparados 7.486 tiros de .50mm, e ao final os oito aviões se reuniram na formação para fazer seu retorno para a base. O Daily Operations Report mostra que durante o trajeto de volta, próximo ao objetivo, a formação brasileira metralhou e destruiu uma camionete militar, depois rumaram na direção de Pisa, onde pousaram às 13:50.

Os habitantes da “Costa Nuova”, aturdidos ainda pelo susto compreensível saíram de seus esconderijos improvisados e entre a poeira dos edifícios derrubados e a fumaça acre dos pneus que queimavam entre as ruínas da oficina trataram de verificar se alguém havia morrido no ataque; felizmente ninguém entre civis e militares perdeu a vida, somente uma jovem que se encontrava próxima ao moinho, foi lançada contra o solo em virtude do deslocamento de ar provocado pela explosão das bombas e quebrou duas costelas. Por outro lado os danos materiais foram enormes, o estábulo foi completamente destruído, e no desmoronamento dele morreram 40 vacas e 4 éguas, outros edifícios também foram gravemente danificados, e da forma que ficaram tiveram que ser demolidos posteriormente.

A “COSTA NOUVA” NO PÓS-GUERRA

Como recordação ao bombardeio aéreo da esquadrilha brasileira, de 1946 até o início dos anos 60 na “Costa Nuova” todos os anos em 10 de fevereiro era celebrada pelas famílias que ali residiam uma festa singular, chamada “FESTA DAS BOMBAS”, um tipo de festa de agradecimento por te-los salvo do perigo. A festa inicialmente era um grande almoço, que se dançava, ceava e voltava-se a dançar, com gente que chegava das cidades vizinhas, portanto era uma festa muito conhecida e de grande participação popular. Mas nos anos 50 a mecanização agrícola provocou uma drástica redução de pessoal, além disso o aumento de renda provocado pela explosão econômica fez com que muitos construíssem sua própria casa, portanto a “Corte Casa Nuova” veio progressivamente sendo abandonada e a “FESTA DAS BOMBAS” não foi mais celebrada, mas ficou guardada na memória e nos corações de quem viveu aqueles momentos autênticos, espontâneos e simples de se viver. Outro acontecimento importante na história da “Costa” foi o filme “Sensualità”, que foi rodado na Corte em 1951. O filme foi interpretado por atores do calibre de Amadeo Nazzari, Marcello Mastroianni e Eleonora Rossi Drago, com direção de Clemente Fracassi e durante a filmagem, que durou um mês, muitas pessoas que viviam na “Costa” foram contratadas como figurantes.

Sobre o Autor: Claudio Mischi, nasceu em 1961 na cidade de Mantua e desde pequeno demonstrava interesse por história militar, por aviação e modelos em miniatura. Em 1994 passa a trabalhar com dioramas militares e colabora com uma revista de modelismo. A partir de 2000 resolve trabalhar com pesquisas históricas e começa a pesquisar quedas de aviões e bombardeios na região de Mantua. Em 2004 escreve um artigo de história militar para a "Gazeta de Mantua" e no mesmo ano trabalha em conjunto com o prefeito de Redondesco para erigir um monumento a quatro aviadores do 319º Bomb Group, e com a prefeitura de Viadana para descobrir a identidade de um piloto cujo avião caiu na região. Em 2005, Claudio descobriu a identidade deste piloto e com isso, o monumento a ele erigido recebeu finalmente o nome e uma foto. Agora em 2006 ele recuperou, em conjunto com o Sentando a Pua! a história do bombardeio da Corte "Costa Nuova", descobrindo após 61 anos qual unidade fez a missão, este trabalho foi publicado no jornal de San Giorgio em junho de 2006.

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