Domingo, 19 de Novembro de 2017
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Eronides João da Cruz, veterano do 1.º Grupo de Aviação de Caça. Crédito: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

“Quem tem número é avião, não é gente.” Foi assim que o cabo Eronides João da Cruz , flagrado dando pão a uma menina italiana diante da base brasileira em Pisa, respondeu ao soldado que o interpelou, perguntando o número de Cruz e lembrando-o de que era proibido dar comida aos italianos. Começou uma briga e o cabo acabou passando 30 dias no xadrez. Hoje, décadas depois do incidente, Cruz, 85 anos, admite: era mesmo muito esquentado. “Mas, também, não tinha outro jeito. O nosso trabalho era muito intenso, tudo tinha de ser tão rápido que nem dava tempo de ficarmos batendo continência para tenente”, justifica. Quando os P-47 do 1º Grupo de Aviação de Caça (GAvCa) pousavam, Cruz e seus colegas eram os primeiros a trabalhar nos aviões. Sua missão: repor o armamento e deixar os Thunderbolts prontinhos para novas missões. Se havia carnaval em Veneza, era a equipe de Cruz que providenciava o confete e a serpentina.

“A gente se levantava muito cedo e ia cuidar dos aviões uma hora antes da primeira missão do dia, que normalmente decolava às 6 horas. O avião já dormia armado, exceto pelos explosivos das bombas, que colocávamos de manhã. Fazíamos uma varredura para ver se estava tudo certo, e só depois de os pilotos subirem é que tomávamos o café”, lembra o veterano. Quando as esquadrilhas voltavam, os aviadores comunicavam eventuais problemas, como metralhadoras emperradas, com mau contato ou com pequenos desvios – os P-47 tinham oito metralhadoras e os tiros deviam convergir para um único ponto. E o pessoal do armamento retirava as armas, resolvia o problema e checava a mira. Se não havia problema, era só limpar as metralhadoras, colocar óleo, rearmar os aviões com as balas ponto 50, os foguetes (abandonados pelos pilotos posteriormente por falta de precisão) e as bombas. Depois que o alvo do bombardeio tivesse sido atingido, os pilotos tinham permissão para, na volta, gastar toda a munição em alvos encontrados ao acaso: trens, depósitos, tanques, tropas. “Ninguém precisava economizar”, conta Cruz.

Infelizmente, no entanto, nem todos os aviadores retornavam a Pisa. “Era a hora triste do grupo. Nós víamos os aviões chegando, contávamos e era fácil saber quando faltava alguém. Quando paravam, íamos perguntar aos pilotos o que havia acontecido. Algumas vezes eles nos tranqüilizavam, dizendo que tinham visto o atingido saltar de pára-quedas, e então só nos restava esperar que eles fossem encontrados pelos partisanos antes dos alemães. Mas outros não conseguiam saltar. Quando isso acontecia, armávamos os aviões com ainda mais gana, para os nossos pilotos se vingarem na próxima missão”, recorda o veterano.

Era nessas horas que o garotão que se ofereceu para ir à guerra porque queria conhecer o mundo percebia a crueldade do conflito. Mas ele próprio nunca correu perigo. “Quando chegamos, a aviação alemã já estava enfraquecida, nunca sofremos ataque aéreo nas bases. A ameaça eram os fascistas, que armavam emboscadas nas cidades e matavam combatentes a facadas”, recorda Cruz. O único susto ocorreu quando uma aeronave espiã alemã sobrevoou Pisa. “Quando tocou a sirene de ataque aéreo, eu estava na casa da família italiana que cuidava das minhas roupas. Eles entraram em pânico, conheciam o terror de um bombardeio. E eu lá, precisando voltar à base, e eles me suplicando para ficar. Tive de explicar que era minha obrigação. Imagine, eu estar com eles na hora da calmaria e, no momento de tensão, cair fora. Não queria que pensassem que eu era covarde”, afirma o veterano.

Cruz diz que o 1º GAvCa era uma família – e, como em toda família, sempre há aqueles com quem se tem mais contato. Na Itália, o 2º tenente Rui Moreira Lima foi um dos pilotos com quem o especialista em armamento mais trabalhou. “Até hoje, nas reuniões do grupo, ele tem um carinho especial comigo”, conta. Lima, hoje brigadeiro, retribuiu todo o cuidado de Cruz com a munição do seu avião imortalizando o companheiro nas páginas do seu livro Senta a Pua!, hoje um clássico da aviação militar nacional.

Este texto foi originalmente publicado no Jornal Gazeta do Povo - Curitiba (PR) em 19 ABR 2008, e foi gentilmente cedido para publicação na íntegra pelo Editor e autor da reportagem, Marcio Antonio Campos