Quarta, 22 de Novembro de 2017
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IMG 4069 web“O problema da morte é sobreviver aos amigos.”

Guilherme Figueiredo

 

Tenho um amigo e ele é bem mais velho do que eu. Na verdade, ele é 45 anos mais velho. Sempre fomos vizinhos – ele maranhense, eu paraense.  Aqui no Rio de janeiro, morou primeiramente no Catete - lá nos idos de 37 - quando o bairro aglutinava um número sem par de pensões para estudantes e pessoas que vinham tentar a vida na Capital da República. Depois, bem mais tarde, foi para Copacabana. Eu criado em Botafogo. Quando jovem ele foi atleta do Fluminense e eu um moleque que só de olhar a piscina olímpica do clube qual era sócio – o Guanabara - tinha medo.

Veio para o Rio para ser cadete da Escola Militar do Realengo visando a Aviação Militar (na época era a 5ª Arma do Exército). Conseguiu passar e em março de 1939, já estava matriculado e o mundo às portas de um novo conflito. Em janeiro de 1941 a Arma de Aviação fora desmembrada das suas células máter – Exército e Marinha – quando foi criada a Força Aérea Brasileira, absorvendo homens e material que antes pertenciam a Aviação Militar e a Aviação Naval.

Quando saiu Aspirante Aviador em 1942 o Brasil já se encontrava em estado de guerra e o jovem - agora 2º Tenente - pediu transferência em 1943 para o Nordeste.  Lá fez 19 patrulhas protegendo comboios e caçando os submarinos alemães e italianos que tantas mortes traziam. Ainda em tempo: nessa época estava recém-casado (viveria com sua amada esposa Julinha, 70 anos). Em dezembro do mesmo ano fora criado o 1º Grupo de Aviação de Caça e aberto o voluntariado para compor suas fileiras. A missão desse Grupo era combater o eixo. Ele apresentou-se como voluntário.

 Em março de 1944 deixou a esposa grávida e partiu para a guerra. Foi um dos criadores do símbolo do Grupo (Capitão Fortunato Câmara de Oliveira o autor do desenho e ele do lema – Senta a Púa!). Durante o conflito fez 94 missões sobre os céus da Itália e dentre essas missões, em uma delas, destruiu 3 tanques alemães que impediam a progressão dos exércitos aliados. Em outra que participara no dia 7 de Fevereiro de 1945 – uma quarta-feira de cinzas - serviu de inspiração para a criação do que seria, mais tarde, o Hino da Aviação de Caça (Carnaval em Veneza).

Com o fim da guerra foi um dos pilotos escolhidos para trazer dos Estados Unidos 19 aviões P-47 Thunderbolt que o Brasil comprara e não usara na guerra.  Depois de 12 dias de viagem entre Kelly Fields (Texas) e o Campo dos Afonsos (Rio de Janeiro) no dia 16 de julho de 1945 chegam voando, sem antes aprontarem uma peripécia em pleno centro da cidade. Naquela época o edifício mais alto era o prédio do Jornal A Noite, que desde 1937 era ocupado pela Rádio Nacional. O Comandante do Esquadrão ordenou a seus pilotos que ninguém voasse abaixo do prédio – ordem não cumprida. O único a passar alto foi o Comandante. Ninguém escutou porque quando da transmissão do comando, os P-47 já estavam dando rasante na Avenida Rio Branco (em uma formação conhecida como cobrinha) só recuperando altitude no fim da avenida. Os avestruzes contornaram a praia do Flamengo e passaram pela praia de Botafogo sumindo atrás do morro do Pão de Açúcar. Contornaram ainda Copacabana, Ipanema, Leblon e São Conrado.

Fez uma carreira brilhante até o posto de Coronel quando teve suas asas cortadas em 1964. Foi preso, respondeu a três I.P.Ms., e passado para a reserva sem o direito a trabalhar naquilo que tanto amava – voar. Na vida civil, primeiro trabalhou como representante de vendas de alimentos depois abriu uma distribuidora de valores imobiliários. Ficou no ostracismo até 1979 o mesmo ano em que publica o livro que serve de inspiração para todo jovem que sonha ser aviador – Senta a Púa!. Em 1992 via justiça comum consegue o posto de Major Brigadeiro-do-Ar.

Gerações de pilotos da Aviação de Caça o tem como ídolo e Norte. Quando das comemorações da Caça que lembram os feitos dos garotos que foram à guerra ele sempre foi uma das figuras mais queridas e atuantes nas festividades.

Tive o prazer e a honra de conviver durante 13 anos com ele. Primeiro, a distancia, aos poucos – como sou um cara de pau – fui me aproximando, aproximando e quando ele se deu conta...  já estava grudado a seu lado.

Chegamos a trabalhar juntos quando seu filho Pedro Luiz (para mim, um verdadeiro irmão) em uma tarde liga para minha casa e pede para ir correndo à casa de seu pai. Assim que cheguei, Pedro Luiz mostrou-me um caderno escrito a lápis e duas cadernetas a caneta. Ali estavam anotadas e descritas todas as 94 missões de guerra. Tive uma síncope! Para um historiador não tem coisa mais preciosa que se deparar com um material primário para estudo. No ano seguinte publicamos o livro.

Sua memória era fenomenal. Descrevia fatos, pessoas e diálogos como se ocorridos há minutos. Quando perguntava algo técnico sobre a pilotagem durante a guerra, a resposta era direta como se o manual tivesse terminado de ser lido. Uma vez tentei-lhe pregar uma peça: misturei elementos de três missões diferentes criando uma quarta imaginária e perguntando sobre o desenrolar da mesma. Sua resposta foi: “qual o alvo e o dia? Está tudo errado! Onde você viu isso? Fulano estava em tal lugar; sicrano não decolou nesse dia por causa disso; eu estava atacando uma estação ferroviária ao norte de Bolonha e não escoltando bombardeiros.” Não dava para enganá-lo. Ele sabia “du coeur” todas as 445 missões de guerra realizadas pelo 1º G.Av.Ca. e os seus componentes.

Em fevereiro de 2013 meu amigo sofre um AVC. Para mim foi um choque. Passou mais de um mês no Hospital do Galeão. Quando do seu retorno para casa eu estava lá. Acompanhei os médicos fazendo os últimos check-ups. Sua cabeça pendia para baixo e o medico falava: “Brigadeiro levante a cabeça!” Na terceira ou quarta vez do meu canto falei em voz alta: “Rui! Levanta o nariz!” Sem pestanejar ele virou a cabeça para mim e falou arrastadamente: “havia um português que queria dar uma volta de avião.” Ele sacara a tirada e respondeu na mesma moeda. Dei um sorriso. Sua mente continuava afiada e atenta a tudo ao seu redor.

Quatro dias passados do seu 94º aniversario sofre outro AVC. Dessa vez seu filho – Pedro Luiz - e eu Estávamos chegando quando a crise iniciou-se. Ao lado da cama de meu amigo estavam seu irmão Bentinho e o Sgt. Enfermeiro Cruz (fiel escudeiro e anjo da guarda) que tanto Flack evitara em 6 anos de serviços muito bem tirados como Ala do meu amigo. Corri para junto deles enquanto Pedro Luiz foi para o cômodo onde se encontrava sua mãe – Julinha – para tentar não deixar transparecer a crise em que nos encontrávamos.

A ambulância já fora acionada no HCA, agora era esperar o socorro. Desci para ajudar no transporte de material. A equipe foi eficiente. Não podendo estabilizá-lo in loco trataram de removê-lo para a ambulância e de lá, correr para o hospital. Foram quase 60 dias de luta no CTI. Armava-me de piadas e de lembranças dos seus companheiros que muitos, só conheci através dos relatos contados por ele e outros veteranos da guerra, para tentar amenizar o sofrimento dele e nosso – Pedro Luiz, Claudia, Julinha, Bentinho, Cruz, Capela e eu - que estávamos diariamente ao seu lado.

No dia 13 de Agosto meu amigo faleceu no Hospital Central da Aeronáutica as 3 horas e 30 minutos da madrugada. Nesta noite não consegui dormir e as 4 horas o telefone tocou. Pulei do computador e quando vi no bina o número, já imaginei que boa coisa não era. Fui o primeiro a chegar. Ainda o vi deitado na cama. Passei a mão em seus cabelos, dei-lhe um beijo na testa e não consegui mais segurar as lagrimas. Só sai de seu lado quando ele foi para o necrotério.

Os jornais noticiaram seu falecimento tanto como o defensor da soberania nacional, como da democracia e sendo o último representante dos pilotos que foram à guerra e formaram a moderna Aviação de Caça Brasileira. O Comandante da Aeronáutica, o Chefe do Estado Maior, Pilotos dos Esquadrões de todo o Brasil fizeram-se representar em seu velório, assim como os seus subordinados na guerra, dentre outras autoridades.

 O voo dos Caças e o toque de silêncio no cemitério São João Batista deram-me um aperto no coração.  Eu não teria mais meu amigo pronto a responder-me as duvidas e curiosidades que os livros não podem responder, só quem viveu a história pode. Soube dias depois que na hora de seu enterro – 16 horas - as Unidades da FAB em todo o Brasil fizeram-lhe uma derradeira homenagem – tropas formadas cantando o Carnaval em Veneza.

Assim partiu o meu querido amigo o Major Brigadeiro-do-Ar Rui Moreira Lima o terror do Vale do Pó; o Piloto do Birrento D-4; o defensor do petróleo; da Base de Alcântara - uma das vozes que impediu que o governo brasileiro (Fernando Henrique Cardoso) passasse para a mesma para mãos americanas fazendo assim, uma Guantánamo em pleno território brasileiro; da vigilância  e posse do território amazônico contra invasores estrangeiros travestidos de ONGs assistencialistas à população indígena e ribeirinha – sempre comentou que esse era trabalho do governo brasileiro e das Forças Armadas.

 O Brigadeiro Rui, meu amigo Rui, não saiu da vida para entrar na história. Ele desde 1939 já fazia e era parte da história do Brasil e da Força Aérea Brasileira. Que sua memória seja abençoada.

Senta a Púa!

Brasil!