Domingo, 19 de Novembro de 2017
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Fui Atingido!

Tenho até hoje, em minha mente, a visão do que aconteceu, quando fui atingido. Assim que levantei o nariz do P-47, para sair do rasante e antes que atingisse os 300 metros, vi a bateria de 4 canhões de 40mm atirar contra mim e atingir meu P-47. Acredito que a defesa AAA, que nos atacou quando nos dirigíamos para o Lago de Como, foi a mesma que me derrubou.

Com os impactos dos projéteis no avião foi como se tivesse passado em velocidade de uma estrada lisa para uma esburacada em fração de segundos. Apesar do susto ter sido grande, comuniquei pelo rádio que tinha sido atingido e que estava com as duas mãos no manche, porque a tendência do avião era baixar o nariz e virar para a direita. Acertaram na asa direita e o aileron foi quase arrancado, sendo a razão de usar as duas mãos no manche e a tendência do P-47 para a direita. Depois do susto e já ganhando altura, apesar do cheiro de gasolina na nacele, pensei que chegaria em nossa base em Pisa. Quando já me encontrava com altitude para atravessar os Apeninos e próximo, a pressão do óleo começou a oscilar e meu ala, Meira, me avisou que estava saindo fogo por baixo do avião, simultaneamente, houve um tranco no motor e quando o Meira retornou com a mensagem rádio, que tinha terminado o fogo, já tinha saltado de pára-quedas.

Cheguei ao solo um pouco violento, pois tinha desviado o pára-quedas da rede de alta tensão. Após ter tocado no solo e me desvencilhado do pára-quedas e do papo amarelo, surgiram algumas pessoas em trajes civis, dizendo que eram partisans e que os alemães já estavam vindo. Como a neve ia acima dos joelhos aproveitei o buraco feito pelo meu corpo, deixei o pára-quedas e o papo amarelo, cobrindo-os com neve. Os partisans levaram-me para uma carcassa de automóvel que ficava perto e disseram-me que se eu não fosse descoberto pelos alemães, viriam me buscar a noite.

Não sei quanto tempo fiquei nesta carcassa de automóvel, antes dos alemães chegarem. Abri minha bolsa de fuga, e tomei as pílulas para me tirar o sono, caso tivesse possibilidade de fuga. Ouvi vozes próximas e, quando olhei para fora, tinha um soldado com um fuzil apontado e atirou. Deve ter acertado na carcaça do auto, porque ouvi o barulho do impacto do projétil no metal e o tal soldado gritar, coisas que eu não entendia, mas ouvi a palavra "pistol", e não tive dúvida em jogá-la para fora de meu esconderijo, mas sem me expor. Como o automóvel não tinha porta e nem banco, eu estava no fundo da mala e vi um vulto, falando em alemão, que para bom entendedor devia ser, para sair. Este camarada era um sargento do exercito alemão, armado de metralhadora e os soldados eram russos tártaros, da Criméia, que combatiam ao lado dos alemães, após terem sido feitos prisioneiros. Escoltado fui para uma casa na cidade de Ponte d'Oleo, ocupada pelos alemães.

Após me revistarem, chamaram um enfermeiro que fez um curativo no meu nariz, que tinha machucado no salto de pára-quedas. Nesta casa permaneci o dia todo recebendo um tratamento indiferente, pelos militares que transitavam por ali.
A noite, fui levado para Piacenza e, fiquei preso num quarto, que tinha a janela com grades. Pela manhã um oficial chegou aonde eu estava e em italiano disse-me - "aqui está muito frio, você vai ficar na minha sala de comando que está aquecida". Minha gratidão a este combatente alemão, que tinha sido do exército do General Rommel na África e, que já tinha cinco anos de guerra. Em cima de sua mesa tinha uma fotografia de sua mulher e dois filhos pequenos. Desejo ressaltar o procedimento deste oficial alemão, como sendo um verdadeiro combatente, porque quando me encontrava na sua sala, entrou um civil italiano que foi tratar do fornecimento de lenha e quando viu em meu uniforme o nome Brasil, se dirigiu a mim com ameaças, sendo imediatamente posto para fora da sala. Quando chegou a noite, este oficial disse que eu iria para Milão e, deu-me um pedaço de pão preto, queijo e salame, fazendo-me a seguinte recomendação: - "economiza esta alimentação, porque podes não ter muito em tua viagem até a Alemanha".