Sábado, 18 de Novembro de 2017
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Viagem à Frankfurt

Em Milão fiquei preso em um xadrez, no subterrâneo da estação de estrada de ferro. Neste local haviam diversas celas, com italianos presos. Cansado e tenso, deitei numa mesa que tinha no xadrez e dormi, quando fui acordado por um cano de uma arma. Eram dois militares italianos, que deviam ser oficiais, pois tinham divisas na ombreira do uniforme. Um estava quieto, mas o outro com o revólver na minha cabeça, estava bravo e me xingava. Graças a Deus, esta situação de rato que me encontrava, foi interrompida pelo outro que estava quieto. Depois que saíram do meu xadrez, senti que poderia ser morto, sem ter tempo de chorar ou de implorar. No outro dia a noite, segui para Verona em um ônibus, misturado com soldados alemães e civis italianos e ao chegar, constatei que também viajava como prisioneiro, um tenente da Força Aérea Americana.
Em Verona, fui levado para um hospital e lá fizeram um novo curativo no meu nariz.

Nesta cidade, ou melhor, no prédio que me encontrava em Verona, fizeram-me o primeiro interrogatório. O oficial alemão tentou falar em italiano e um outro alemão em espanhol. Como não entendia o que falava em espanhol, ele disse que já conheciam tudo de nossa unidade tais como: nome do comandante, e cidade. Como tínhamos tido aulas dos americanos sobre os procedimentos dos alemães nos interrogatórios, esta conversa do oficial alemão, fez-me recordar dos ensinamentos recebidos e este era um deles. Como não estava com vontade de falar, apesar de gostar de um papo, nada resultou da insistência do oficial alemão, então ele me entregou um documento com o símbolo da Cruz Vermelha Internacional, para que eu preenchesse. Mais uma vez, pude avaliar a eficiência de nossa instrução, porque este documento havia sido mostrado nas aulas, e era um engodo, que quando preenchido, estaria respondendo a muitas informações militares que constavam em forma de perguntas. Recusei-me a preenche-lo e, não me lembro de ter havido alguma reação violenta do alemão. Depois desta tentativa de interrogatório, levaram-me para outro quarto prisão.

Neste novo local, encontrei três oficiais, sendo dois americanos e um sul-africano. Como também, haviam nos ensinado nas aulas, que os alemães introduziam espiões com uniforme do inimigo, fiquei desconfiado e, principalmente, porque um dos oficiais americanos, era o que tinha viajado comigo de Milão à Verona. A bem da verdade, no meu inglês, mesmo que não estivesse desconfiado, não poderia dialogar, porque não era bom para falar, embora, entendesse bem melhor.

O oficial sul-africano era muito conversador, e devia contar boas estórias, porque os americanos riam muito, mas pouco proveito eu estava tirando, porque entendia muito pouco. Este sul-africano, era um veterano de guerra, pelo que podia entender da conversa, já estava há quatro anos na guerra e, já tinha sido abatido duas vezes e havia conseguido se evadir. Este oficial parecia que estava num weekend, tal a sua alegria e descontração e pela sua experiência em anos de guerra, eu e os dois tenentes americanos éramos uns recrutas bisonhos. Depois de muito conversar, passou a vasculhar o quarto a procura de algum microfone, e quando se convenceu que não havia escuta, elaborou um plano de fuga em nosso deslocamento de trem pelo Passo de Brenner. Pois nesta altura, já sabíamos que seríamos transportados para a Alemanha e, sairíamos de trem de Verona. O plano do oficial sul-africano, estava baseado no descarrilamento do trem, ou este ser atacado pela aviação aliada e na confusão, poderíamos escapar da escolta e subirmos as escarpas do Passo de Brenner, porque o topo das montanhas estava dominado pelos guerrilheiros. Penso que foi muito bom não se ter concretizado seu plano de fuga, porque pelo que havia de neve, nunca conseguiríamos atingir o topo dos Alpes, pois teríamos ficado congelados.

No dia seguinte, fomos retirados do quarto, e o oficial alemão que havia tentado me interrogar, informou que iríamos de trem para a Alemanha, e nos pediu para assinarmos um documento, em que empenhávamos nossa palavra que não tentaríamos a fuga. Como nos recusamos a assinar o documento em questão, ele nos informou que não devíamos tentar a fuga, porque a guarda (três soldados e um sargento) tinham ordem para atirar.

A nossa viagem de trem terminou em Trento, porque a estrada de ferro tinha sido danificada por ataque de aviação.
Ficamos em Trento algumas horas e, prosseguimos viagem na carroceria aberta de um caminhão, até a cidade de Bolzano.
Nesta viagem o frio nos castigou muito, apesar de pensar que voava bem agasalhado, usando o uniforme de inverno da FAB e, por cima dele a jaqueta e a calça forrada da Força Aérea Americana.

Apesar da viagem incomoda para Bolzano, senti uma satisfação quanto a destruição causada na linha férrea pela aviação. Como tinha atacado com a esquadrilha verde aquela via férrea dois dias antes e, como tinha sido ao norte de Trento, senti uma satisfação imensa, pois considerei que a interdição da linha férrea havia sido feita por nós.

Em Bolzano, recebemos uma alimentação quente, que muito ajudou e a noite seguimos viagem de trem para Alemanha.
Durante a nossa viagem de Verona, o oficial da África do Sul, estava sempre contando estórias e acredito que deviam ser muito engraçadas, porque os oficiais americanos riam muito, eu, como entendia pouco o inglês, pouco proveito estava tirando.
Quando deixamos Bolzano, e antes de entrarmos na Áustria, o sargento alemão que comandava a guarda, falando em italiano comigo, pediu para avisar os outros prisioneiros, que não devíamos rir porque, a população civil não gostava dos aviadores por causa da destruição que a aviação estava causando e, como no trem embarcariam civis, nós poderíamos ser agredidos e a guarda não teria meios de nos defender.

Apesar do meu mau inglês, consegui transmitir a observação do sargento e, na verdade, todos entendemos muito bem, porque terminaram as estórias engraçadas.

Durante esta viagem pela Alemanha, até chegarmos a Frankfurt, nunca fomos agredidos, mais alguns civis mais exaltados nos cuspiram e diziam coisas em alemão, que embora não entendêssemos, sabíamos que estavam dando vazão a raiva. Na realidade, em qualquer língua, o xingamento é igual, porque a maneira de falar, o olhar e a contração facial dizem tudo.
Não me recordo exatamente, mas acredito que levamos dois ou três dias para chegarmos em Frankfurt, fazendo algumas baldeações. Os guardas que nos acompanhavam não nos molestavam e sempre conseguiam alguma alimentação para nós.