Sexta, 24 de Novembro de 2017
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Dura Rotina de um Prisioneiro

Quando iniciamos nosso deslocamento, vim a saber que iríamos a pé e que a distancia a percorrer era de mais ou menos cento e oitenta quilômetros.

Éramos, aproximadamente, dez mil prisioneiros e estávamos agrupados em pelotões de trinta homens, escoltados por quatro soldados alemães e dois cachorros, que me fez recordar o tempo de guri no sul, quando eu com dois ou três cachorros ovelheiros deslocava as ovelhas para o local do banho contra sarda. Os cachorros alemães não deixavam os prisioneiros sair da fila e nem se atrasarem, exatamente como faziam os ovelheiros com as ovelhas, trazendo para o rebanho os que tentavam desgarrar. Andamos o dia todo e ao entardecer chegamos numa pequena cidade e nosso pelotão foi dormir na igreja.
No dia seguinte, iniciamos nossa marcha, usando estradas secundárias, mas asfaltadas. No fim do dia recebemos a primeira refeição dada pelos alemães e fomos dormir num galpão de uma fazenda. Como havia muita palha no galpão, cada prisioneiro preparou sua cama bem macia e foi uma excelente dormida. Os meus pés já estavam com muitas bolhas, porque nos dois meses de prisioneiro, não tendo tomado banho, com os dois primeiros dias de marcha, as meias se desfizeram. Para que os pés não ficassem folgados dentro da botina, causa das bolhas no calcanhar e dedos, enchi a mesma com palha, melhorando meus pés no terceiro dia de marcha.

Neste terceiro dia de marcha, adveio-me um desarranjo intestinal acredito que estivesse com febre. Fomos informados pelos alemães, que deveríamos andar até meia noite, porque deveríamos pernoitar numa cidade que não me recordo o nome. Acredito que este dia mais longo de marcha, fosse devido ao avanço dos aliados, porque nunca deixamos de estar ouvindo os tiros de artilharia durante a marcha.

Quando a noite atravessamos uma área de mata e fizemos uma parada para descanso, pensei em ficar escondido esperando a chegada dos aliados, porque já não me sentia com forças suficientes para marchar mais umas três horas. Outros prisioneiros queriam aproveitar a escuridão da noite e a área da mata, porque achavam que os aliados estavam muito próximos. Alguns prisioneiros tentaram persuadir os que tentavam fugir, porque o risco seria maior, do que permanecer em marcha e que caso fossem descobertos pelos alemães, poderiam ser mortos.

Apesar da minha primeira intenção, era permanecer escondido no mato, por achar que não teria condições de andar, mas com a conversa de alguns prisioneiros, convenci-me que tinha de reunir alguma energia e continuar a andar, porque o risco de ficar escondido e ser morto pelos alemães era um fato.

Dois companheiros prisioneiros presentes na conversa, disseram-me que me auxiliariam na marcha até chegarmos ao destino. Um dos prisioneiros era um Tenente americano Brown e o outro um inglês, Davies.

Após andar algum tempo auxiliado pelo Brown e Davies e com uma chuva leve para complementar o quadro, passamos por umas barracas que estavam armadas próximo a estrada e com a Cruz Vermelha. Nestas barracas já estavam muitos prisioneiros estropiados e com a autorização dos soldados alemães, meus amigos Brown e Davies, largaram-me aí.

No dia seguinte, os prisioneiros estropiados em número de vinte, seguimos nossa marcha mais vagarosamente, acompanhados por dois soldados alemães, com aparência de velhos, já cansados da guerra e bondosos conosco.
Quando estávamos em nossa marcha vagarosa, passou uma carroça colonial com um civil alemão dirigindo-a. Os soldados alemães fizeram-no parar e colocaram nela os prisioneiros em pior situação. Não me lembro se fui contemplado com um lugar na carroça. Estávamos neste deslocamento, quando um militar alemão, em uma motocicleta, parou e falou com os soldados alemães que nos escoltavam. Imediatamente, ordenaram que nos escondêssemos no mato próximo a estrada, porque estavam tropas SS. Os guardas alemães também se esconderam no mato. Dentro de poucos minutos passaram os caminhões com tropas da SS.

Os militares do exército alemão Wermacht, naquela situação de guerra, temiam a famigerada SS, tropa fanática de Hitler e que já estava controlando as operações militares do exército alemão.

Após a passagem da tropa SS, iniciamos uma marcha lenta e a tarde chegamos numa pequena cidade alemã. Fomos para um prédio que devia ter sido um hotel. Lá já se encontravam uns trezentos prisioneiros, que de outras colunas em marcha de Nuremberg, já tinham entregue os pontos, assim como nós que estávamos chegando.

O difícil foi arranjar um lugar no chão para deitar. Nesta altura, sentia-me fraco e com a infecção intestinal em pleno desenvolvimento e com fortes cólicas. Como era noite e pouca luz, não deu para apreciar aquela massa humana. Mas no dia seguinte com a luz do dia, o aspecto dos prisioneiros doentes e sujos, era deprimente. Neste bando, haviam prisioneiros ingleses de Dunquerque, que com vinte e poucos anos de idade pareciam homens idosos.

O oficial alemão que comandava aquele bando de prisioneiros, considerando as condições físicas dos mesmos, nos reuniu e comunicou que ficaríamos descansando junto a Cruz Vermelha Internacional e que caminhões fariam nosso transporte para Muesberg. No terceiro dia de descanso chegaram os caminhões, e nós seguimos para Muesberg, onde chegamos dois dias antes dos prisioneiros que fizeram o deslocamento a pé.

No campo de concentração de Muesberg, fomos para um alojamento pequeno para o número de prisioneiros, mas permitia que pudéssemos deitar no assoalho. Como já estávamos em abril, a temperatura durante o dia era agradável e a noite embora mais fresca, era perfeitamente aceitável a dormida no chão. Nesta área em que estávamos, mas em um outro alojamento haviam prisioneiros russos, que os americanos não deixavam entrar em nosso alojamento, porque diziam que os russos roubavam. Na primeira noite neste local, senti cólicas violentas e senti que teria que ir para o local apropriado, que era um barraco afastado uns vinte metros. Como estávamos dormindo no chão, e era escuro, sai pisando nos prisioneiros, que não sabendo do meu estado, diziam palavrões, quando eram acordados pelas minhas pisadas. Devido a esta dificuldade para sair do alojamento, não consegui chegar intacto no meu destino. por sorte não era mais inverno, porque fui obrigado a ficar nu para lavar a roupa e a mim.

Na manhã após o incidente, saímos deste local que tinham russos e fomos para outro setor do campo de concentração. Neste alojamento não havia cama, mas também não fazia muita diferença dormir no chão, ou numa cama sem colchão.

Neste primeiro dia estava sentado perto da cerca de arame farpado que separava do outro setor de prisioneiros, quando alguém em português se dirigiu a mim.

Embora me sentisse fraco e desanimado, pois ainda me achava desarranjado dos intestinos, ouvir alguém falar a minha língua, foi um alento.

Este prisioneiro era o Tenente Varoli da FEB, paulista de Guaratinguetá. Tinha sido feito prisioneiro no primeiro ataque do exército brasileiro contra Monte Castelo. Ele foi prisioneiro juntamente com alguns sargentos e soldados.

O Tenente Varoli tinha chegado fazia pouco tempo no campo de concentração de Muesberg, evacuado de um outro campo na Prússia, devido a aproximação dos russos.

No segundo dia de estadia no campo de Muesberg, como ainda estava doente, procurei o oficial americano, responsável pelo setor e expus meu estado de saúde. Ele colocou a mão na minha testa e disse-me que ainda estava com muita febre e que precisava ser medicado. Como seria difícil ser tratado pelos alemães, levou-me para um prisioneiro inglês . Falei sobre meu estado de saúde, e ele deu-me um carvão para comer na hora e mais um pouco para comer mais tarde. No dia seguinte não sentia mais cólicas, o intestino passou a regularidade. Voltei ao prisioneiro inglês que tinha sido meu médico e ele me deu mais um pouco de carvão e disse-me que febre tinha baixado.

Com o meu restabelecimento, recuperei um pouco a energia e me sentia animado. Já estávamos no mês de abril, com dias quentes e, sabíamos que a guerra estava no fim, pois o troar dos canhões era ouvido por nós e a aviação de caça aliada, sobrevoava quase que diariamente o campo de concentração. Estes acontecimentos eram mais importantes, que a pouca alimentação recebida dos alemães. Aquela sensação de fome não existia mais, porque o estômago já estava acostumado e quando recebíamos os pacotes de alimentos da Cruz Vermelha internacional, tínhamos o controle de economizar o adicional de alimentação recebida.

Até a libertação, no dia 29 de abril de 1945, preenchia o dia em papo com o Ten. Varoli, através da cerca de arame farpado, e depois por um buraco feito pelos prisioneiros, passava para o setor dele e ia conversar na sua barraca.

Com o tempo quente, nós ficávamos nus e catávamos nas roupas, um bichinho parecido com traça, e que provocava muita comichão pelo corpo, outro passatempo era catar piolho. Como eu já estava quase três meses sem tomar banho, e sempre dormindo no chão, estes pequenos animais com a chegada do calor, proliferavam e incomodavam a gente

Todo o dia os alemães liam um comunicado de guerra, que lhes era favorável. Estas notícias não nos atormentavam , porque o troar dos canhões e a aviação de caça sobrevoando o campo quase que diariamente, sabíamos que nossa permanência no campo de concentração estava chegando ao fim. Outro elemento importante em nosso estado de espírito eram as informações da BBC, captadas por receptor em poder dos prisioneiros. Nunca vi o aparelho de rádio e nunca soube onde estava , mas diariamente recebia de um mesmo prisioneiro americano, as últimas informações do noticiário da BBC.

Poucos dias antes de sermos libertados, na revista diária, feita pelos alemães fomos informados, que devido ao avanço aliado, seriamos evacuados para outra área.

Esta notícia provocou nos prisioneiros um burburinho e um desalento, pois estávamos conhecedores do que passaríamos com nossa marcha, porque fazia pouco que tínhamos feito o deslocamento de Nuremberg para Muesberg.. Após esta desagradável notícia dos alemães, o serviço de informações dos prisioneiros, passou a difundir entre nós um comunicado do Comando Aliado para o Comando das Forças Armadas Alemães que dizia o seguinte : "como no avanço das tropas aliadas através da Alemanha, tinham sido encontrados mortos, prisioneiros de guerra, nos deslocamentos as Forças Armadas Alemães seriam responsabilizadas pelas mortes dos prisioneiros de guerra nos futuros deslocamentos".

O nosso deslocamento não foi efetuado e acredito que foi por causa do comunicado do Comando Aliado.