Sexta, 24 de Novembro de 2017
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Liberdade, Enfim!

No dia 29 de abril, quando completava meus três meses de prisioneiro, fomos acordados pela manhã cedo, pelos gritos de um prisioneiro, que o campo estava desguarnecido. Os prisioneiros quiseram sair da barraca, mas o oficial americano que nos comandava, não permitiu e mandou que todos permanecessem abaixados e não se expusessem nas janelas. Os prisioneiros acataram as ordens do oficial americano, ou por disciplina ou por medo de perder a vida imprudentemente no fim da guerra. O oficial americano por um canto da janela, informava o que estava vendo do lado de fora, tais como: as torres de vigilância estavam desocupadas, os guardas alemães estavam do lado externo do campo de concentração. Estávamos nesta tensão e alegria quando começamos a ouvir rajadas de metralhadoras e tiros isolados, cada vez mais intenso e mais próximo de nós. Repentinamente, em todo o campo ecoou uma gritaria tremenda. Era a bandeira americana hasteada na igreja da cidade de Muesberg, e vista do campo de concentração. Pouco tempo depois de nossa gritaria, os tanques americanos derrubavam as cercas de arame farpado. Estávamos livres. A alegria foi geral. Assim que me refiz da expansão, por estar livre, saí à procura do Corrêa Netto.

Apesar de sermos quase cinqüenta mil prisioneiros, divididos em setores com mais ou menos quinhentos prisioneiros, não foi difícil encontrar o Correa Netto, porque da Força Aérea Brasileira éramos apenas os dois, portanto aves raras.

A tarde chegaram os primeiros caminhões trazendo alimentação. Nós habituados com pouca alimentação, comíamos mais com os olhos do que com o estômago.

À tarde eu e o Correa Netto, fomos a cidade de Muesberg, que praticamente estava deserta, só encontrando prisioneiros que carregavam as coisas mais extravagantes. A noite nosso campo parecia um acampamento de ciganos, tal o número de fogueiras onde, se viam leitões, galinhas, etc., sendo assadas pelos prisioneiros. Tudo o que os prisioneiros puderam tirar dos alemães, levaram para o ex-campo de prisioneiros. Além dos animais para comerem, tinham cavalos, charretes, automóveis etc.

No dia seguinte a nossa libertação, a polícia militar americana considerou a cidade de Muesberg sob controle e não permitiu a ida dos prisioneiros, para evitar desatinos .

O General Patton, que comandava o Terceiro Exército e que nos libertou, apareceu no campo no seu uniforme impecável e, com o seu revólver 45 de cabo de marfim. Dirigiu-se aos prisioneiros informando que deveríamos ficar mais alguns dias no local, porque todos os meios de transporte terrestre e aéreos existentes estavam apoiando o Terceiro Exército, no seu avanço para o leste.

Após as 24 horas da libertação, começou a atuar a organização americana, organizando em cada setor do campo de concentração os pelotões para a evacuação

Cada pelotão tinha o seu responsável e um número, que serviria para orientá-los a se dirigirem para seus transportes. Como o Correa Netto estava num outro setor, ficou num outro pelotão. As unidades móveis de banho, organizaram seus banheiros e os pelotões em ordem se dirigiam para a área da higiene. Todos ficávamos nus e com os olhos fechados, nós e nossas roupas iam sendo desinfetadas, acabando os piolhos e os bichos que provocavam a comichão no corpo. Após esta primeira limpeza, íamos para os chuveiros e lá deixávamos a sujeira. Que coisa formidável um banho, depois de três meses. Antes de deixarmos o campo de concentração, soube que no prédio da administração alemã estavam os pertences tomados quando feito prisioneiros.

Quando cai prisioneiro na Itália, no dia 29 de janeiro, haviam me tirado o relógio e um cronômetro marca Universal. Sem muita esperança resolvi ir no tal prédio e qual não foi minha surpresa, encontrando meu relógio com uma tarjeta de identificação em meu nome, posto e meu número de identificação.. Como é que uma força armada, que preserva os bens de um prisioneiro, pode ser levada por um bando de fanáticos.

No dia 7 de maio, deixamos o campo de concentração e, de caminhão nos dirigimos para a cidade de Ingolstadt, nas margens do Danúbio. Ficamos para o pernoite num antigo quartel alemão. Os ex-prisioneiros descobriram o almoxarifado do quartel e, pela manhã quando fomos para a fila do café, haviam muitos deles com uniformes alemães e cheios de ribon de condecorações alemães. Após o café fomos para o campo de aviação de Ingolstadt, antiga base militar da aviação alemã. Enquanto aguardávamos a chegada dos C-47, que nos levaria para a França, fui ver os aviões alemães que haviam sobrado, estando alguns intactos, outros parcialmente danificados e a maioria destruída pela velha aviação de caça. Foi no campo de aviação de Ingolstadt, que vi pela primeira vez na minha vida, um avião a jato, o célebre ME-262.

Enquanto aguardávamos a chegada dos C-47, aconteceu uma cena de guerra cômica, quando apareceu voando rasante um Stuka, para pousar no campo. Mas os soldados americanos que guarneciam as metralhadoras .50, montadas nos caminhões, abriram fogo contra o Stuka, cujo piloto queria pousar para se render.

Com as metralhadoras atirando o coitado do piloto arremeteu rasante e num zig-zag miserável, desapareceu por trás da mata. Dentro de poucos minutos, voltou ele rasante e com pano branco amarrado na nacele e, muito antes do avião parar, ele já estava trepado na asa. Neste dia 8 de maio de 1945, tinham sido suspensas as operações militares, pela rendição incondicional dos alemães.

Após nosso almoço, começaram a chegar os aviões C-47, em fila indiana. Os aviões não paravam os motores e, por alto falante, comunicavam o número do pelotão e o número de matricula do avião que deviam ser ocupados. Embora já libertado há alguns dias, e portanto, em segurança, foi uma satisfação quando deixei a Alemanha.

Nosso destino estava sendo a cidade da Havre, na França. Neste vôo até Havre, sobrevoamos regiões muito bonitas, mas tudo que havia visto de destruição na Itália, Áustria e Alemanha, foi pouco comparado com o que estava observando de nosso C-47.

Do campo de aviação de Havre, fomos de caminhão para uma imensa área com barracas armadas, que seria nosso local de permanência.

Como sempre a organização americana estava funcionando com a sua eficiência. Após chegar nesta área, sem atropelos, foi servido café com donnuts. Após esta pequena refeição, recebemos talheres, pratos caneco e cobertores e o número da barraca que seria o nosso hotel.

No dia seguinte, após o breakfast, fora do comum em abundância e variedade de alimentos, senti que nos meus três meses de prisioneiro, meu estômago havia murchado, porque não consegui comer nem um terço do que minha vontade desejava. Realmente, nesta área para alimentação, havia um cartaz que nos alertava para sermos moderados em nosso desejo, porque havíamos sofrido fome e, consequentemente, o estômago não estava preparado para receber muita alimentação.

Após o suculento café, fui procurar o velho Corrêa Netto. Não foi difícil dentro daquela organização americana. Juntos, já estávamos sabendo que começaria dentro de poucos dias a evacuação por navio dos prisioneiros. Como tínhamos combatido dentro da organização americana, logicamente, que iríamos para os Estados Unidos. De comum acordo desejava voltar para a Itália, para junto de nossos companheiros do 1º Grupo de Caça. Fomos ao Quartel General na própria área, que estava coordenando os embarques dos ex-prisioneiros para suas pátrias. Fomos recebido amigavelmente pelo Coronel Aviador Snavely, da Força Aérea Americana, logo que nossa presença foi comunicada. O Correa Netto que falava melhor, expôs ao Cel. Snavely nossa intenção de irmos para Pisa, na Itália, onde estava nossa unidade e que, não era nosso desejo seguir para os Estados Unidos.

Ele compreendeu nossa vontade e disse que iria tomar providencias e que voltássemos após o almoço. Antes de nos despedirmos, chamou um sargento americano e mandou que arranjasse toalha, sabonete e nos levasse para seu banheiro privativo. Enquanto tomávamos nosso banho, apareceu o sargento e disse que deixássemos toda nossa roupa e que enroladas na toalha fossemos a sala do Cel. Snavely. Com o Coronel fomos ao almoxarifado e lá recebemos meias, cuecas, lenços e uniforme americano.

Após nosso almoço, e fardados como oficial americano, fomos a presença do Coronel, como havia sido determinado.. Quando entramos em sua sala, fomos informados que estava tudo resolvido, isto é, um avião viria nos buscar e já tínhamos reserva em Paris, num hotel de rest camp da Força Aérea Americana e que nossa embaixada já estava informada de nossa situação e o hotel que ficaríamos hospedados.