Sexta, 24 de Novembro de 2017
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TARQUíNIA, ITÁLIA
Passei lá também por momentos muito difíceis! Em pleno inverno, com temperaturas que chegavam até 12 graus negativos, acordávamos mais ou menos as 06:00h, ainda escuro , para irmos fazer o "pre-fligth" nos aviões P-47. Íamos das barracas até a pista a pé, caminhando em valas com gelo (água congelada), e não tínhamos sequer um agasalho! Usávamos os cobertores para nos enrolarmos neles para nos aquecermos.

Chegávamos aos aviões e eles estavam cobertos de gelo! Nós, os mecânicos dos aviões, usávamos vassouras para varrer o gelo que havia sobre as asas e o "canopy". Fazíamos o "pre-flight" às 07:00h.

A forte neblina (nevoeiro) impedia que os vôos se iniciassem antes das 11:00h! O pior é que nossos vizinhos, os americanos, dos outros esquadrões começavam o "pre-flight" às 09:00h ou 09:30h!

Comentando esses fatos com o tenente Bochetti, meu amigo, ele me contou reservadamente que no almoxarifado do grupo havia grande quantidade de agasalhos próprios para serem usados pelo pessoal de pista.

Sabendo da existência desses agasalhos pedi aos nossos chefes de equipe (Queiroz, Gondim, Militino, Setta, etc.) que ponderassem junto aos nossos oficiais responsáveis, por aquela determinação, que mudassem os horários e outras coisas mais. Infelizmente todos se negaram a se dirigir ao responsável por aquelas determinações, o Cap. Av. Gibson.

Certo dia, num daqueles bem tumultuados, cheio de problemas, apareceu para fazer um vôo de experiência, em meu avião, o Cap. Gibson! Assim que o avião decolou, apelei mais uma vez para o mais antigo presente na pista, não posso precisar quem, e mais uma vez ele se negou a fazer tal ponderação ao Cap. Gibson.

Discuti, e disse que eu mesmo, apesar de ser um dos mais modernos (novos), iria falar sobre todos os assuntos que estavam nos afligindo. Fui alertado para que não tomasse essa iniciativa pois eu poderia ser severamente punido e quem sabe voltar até para o Brasil! Eu estava tão desesperado que resolvi assumir todos os riscos.

Assim que o Cap. Gibson pousou fui atendê-lo e vendo-me só junto dele, senti certa apreensão, não medo. Pedi-lhe permissão pois tinha alguns assuntos a conversar com ele.

Expus todo nosso problema, com todos os detalhes, porém tive antes o cuidado de lembrar-lhe que não caberia a mim, como um dos mais modernos, fazer-lhe tais reivindicações.

Ouviu-me muito atentamente, e demonstrando grande surpresa, pois jamais tinha sido notificado de tais anormalidades. Para minha surpresa, ao invés de me repreender, pediu-me: "Sargento João, o que você sugere para melhorar essa situação?"

Falei: "Cap. Gibson, se o senhor se dispuser a mudar o horário do pré-vôo, a exemplo ds americanos, e a distribuir os uniformes para frio que estão no almoxarifado, mesmo sendo americanos, pelo menos até que cheguem os abrigos do Brasil, ficaríamos muito gratos."

De imediato o Cap. Gibson perguntou-me: "Sgt. João, você acha que isso vai resolver o problema do frio?" . Respondi-lhe que pelo menos minimizaria nossa situação desesperadora. Apenas educadamente, disse-me que iria estudar o problema.

Quando o Cap. Gibson se afastou da pista após todo aquele desabafo, os mais antigos (os que deveriam ter tomado aquela atitude) disseram-me: "Joãozinho, você vai ser mandado de volta para o Brasil, o Cap. Gibson é muito Caxias!"

Contei-lhes que essa não havia sido a minha impressão, achei-o bastante compreensivo e receptivo! Para minha surpresa geral, no dia seguinte após o café da manhã, foi anunciado no alto-falante existente no acampamento o seguinte aviso: "Atenção senhores mecânicos de avião e rádio-telegrafistas de vôo, apresentem-se no almoxarifado do grupo."

Para espanto de todos nós, o Ten. Bochetti distribuiu a todos nós mecânicos e rádio-telegrafistas os uniformes completos para frio (americanos) constando de:

  • Botas de carneiro invertido
  • Calça e casaco de lã de carneiro interno
  • Boina e luvas de lã

Parecíamos esquimós!!!

Teve um final feliz a minha conversa com o Cap. Gibson, apesar do medo de todos os mais antigos que eu. Graças a Deus! Eu não suportava mais tanto sofrimento!

Fiquei gostando ainda mais do Cap. Gibson. Para ter uma idéia da consideração que ele tinha comigo, fui o primeiro a saber da decisão que ele tomou em voltar para o Brasil.

Chegou de uma missão completamente molhado, dava a impressão de que havia saído de uma piscina. Perguntei-lhe assustado: "O que houve Cap. Gibson?". Ele calmamente e demonstrando cansaço respondeu-me: "Sgt. João, vou voltar para o Brasil, isto aqui não é mais para mim! É para esses meninos novos! É preciso ter culhão preto!"

Realmente, foi a última missão que fez, regressou para o Brasil. Se eu já o admirava, passei a admirá-lo mais ainda pela sua sinceridade e honestidade!

história contada pelo Sgt. João Rodriguez Filho