Sábado, 18 de Novembro de 2017
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Outro lance dramático do Canário. Preliminarmente, esclareço que não testemunhei o final do episódio — justamente a parte mais importante — mas fui inteirado de todos os pormenores pelos cronistas e bardos de quartel, certamente burilados e enriquecidos, como só, aliás, acontece até mesmo nas atas de reuniões de idoneidade indiscutível. E como, afinal, interessam menos as minúcias dos fatos do que os grandes gestos e atitudes que eles possam representar, aceitemos esta versão.

O Canarinho nesse dia era ala do Tenente Othon Correia Netto, comandante de uma das duas esquadrilhas que cumpririam missão no mesmo objetivo. A outra era liderada por mim. Teto baixo, chuva, toda a área encoberta. Vôo em formação cerrada, por instrumentos, conduzidos pelo Radar de terra até o objetivo. Foi nesta missão que o Correia Netto, o nosso querido e respeitado Serião, foi abatido pela antiaérea de Casarsa.

O Serião era um outro jovem que, como o Canarinho, já tinha a testa prematuramente alta, exibindo os primeiros albores de calvície. Esta característica que lhes era comum, me parecia, de certa forma, um símbolo ou marca daquela respeitabilidade, firmeza e nobreza de atitudes que eles também partilhavam. E se esta minha intuição tiver qualquer fundamento científico, teria a corroborar a tese o patrono deste grupo especial, na pessoa, também respeitabilíssima, do então Major Pamplona, Operações do 1º Grupo de Caça, cuja fronte era a maior de todas.

Mas, na verdade, esta condição de latitude da fronte nada tem a ver com a história, pois os pontos cruciais do episódio foram, primeiro, de ordem fisiológica para, depois, se situarem no terreno dos sentimentos nobres de altruísmo e de solidariedade humana. Como já disse, o tempo estava péssimo. Na cabeceira da pista permaneciam sempre dois P-47, de alerta, para decolarem, em caso de ataque aéreo de surpresa. Eram os STAND-BY, sempre escalados dentre um dos outros três grupos americanos, também sediados em Pisa.

Era uma tarefa chatérrima. Os contemplados tinham que envergar aquela tralha toda, rolar o avião até uma das cabeceiras e, na escuta da torre, permanecer ali algumas horas, até serem substituídos. Se, pelo menos, aparecesse algum alemão com vocação de suicida, a coisa poderia até ficar divertida. Mas, como não aparecia, o negócio era levar bastante literatura e gramar aquelas horinhas de tédio da melhor forma possível. Não sei de quem brotou o brilhante argumento, mas o fato é que os Brazilians não entravam nesta escala por alegadas dificuldades de comunicação em inglês... E vejam que o inglês era o idioma usado por nós em todas as comunicações durante a Campanha da Itália! Para todo o resto não surgiu esta dificuldade! Enfim, quem dorme de touca fica de STAND-BY.

Neste dia também, como de costume, o alemão corsário não veio, porém, como verão adiante, veio o Canarinho para quebrar a monotonia daquela enfadonha tarefa.

Decolou primeiro a esquadrilha do Correia Netto e, em seguida, a minha. Devíamos reunir rapidamente e cerrar as formações. Combináramos seguir rumos divergentes durante os primeiros dez minutos para depois seguirmos, paralelamente, o VECTOR (proa) ditado pelo controle-radar. Assim fizemos. Mal penetrávamos no negrume das nuvens carregadas, ouviu-se o seguinte diálogo, pelo rádio, naquela modulação cristalina que tinham os nossos equipamentos V.H.F.:

— Serião, é o Canário! Vou ter de regressar já! Estou com uma dor de barriga insustentável: não dá p’rá prosseguir!

O timbre e as inflexões da mensagem corroboravam a gravidade do seu conteúdo. Achando que deveria animar o aflito contribuí com um aparte que omito, a bem do estilo.

Correia Netto: — Entendido garoto, pode voltar — mete os peitos!

Friso, novamente, que o Canarinho já tinha então tamanho crédito como pessoa e como piloto que ninguém poderia pôr em dúvida a veracidade da existência do mal, nem tampouco atribuir o surgimento do aludido mal a causas menos honrosas. Foi justamente este segundo aspecto que eu feri, cavilosamente, no aparte que ofereci na ocasião. Fi-lo tranqüilamente, pois sabia o Canarinho imune a tais insinuações.

Canarinho regressou. Correia Netto prosseguiu com os outros dois de sua esquadrilha. Nas minhas recordações daqueles tempos, vários pontos desta missão me marcaram a memória. Um foi ver o Correia Netto sendo abatido e flutuando de pára-quedas. Que alívio ver aquele cogumelo branco desabrochar! Mas esta história já foi contada pelo Rui. Outra visão que trago nítida é de quando voávamos, as duas esquadrilhas, rumo ao objetivo, ainda por instrumentos, em rumos paralelos. Por poucos minutos, talvez já na altitude de uns quatro ou cinco mil metros, alcançávamos, no mesmo instante, uma brecha horizontal, entre as camadas, que se apresentava como um enorme disco escuro. Pude então ver a esquadrilha desfalcada do Correia Netto à nossa frente e à esquerda a umas duas milhas, como três pontos pretos naquele imenso sanduíche de nuvens. Um instantâneo inesquecível a destacar a nossa pequenez.

Nesse dia quase todo o território do norte da Itália estava encoberto. Depois de termos cumprido a missão e de o Serião ter sido abatido, reuniram-se os outros dois que restavam de sua esquadrilha à minha e desbordamos em direção ao Adriático, onde encontramos grandes aberturas na cobertura de nuvens. Transmitimos essa informação ao COOLER (Controle Radar de Terra) que desviou uma esquadrilha inglesa para essas bandas, onde o regresso se fazia mais ameno.

Meanwhile, como não diria o Guizan — pois é! Nesse ínterim, outra situação dramática se desenrolava, desde o regresso do Canarinho por motivo de força maior intestinal. Contam os imaginosos que o Canarinho nunca pousou tão bem, lisinho, sem o menor solavanco — e olhe que ele é mão-de-seda! Pousou, rolou até o fim da pista e, mal dobrou para a pista de rolagem, estacionou, bem junto a um dos dois STAND-BY americanos de quem já falamos. Capota aberta, freio de estacionamento, desatrelar toda aquela parafernália de cintos, pára-quedas, máscara de oxigênio, capacete com fones, etc..., e em seguida um striptease debaixo da asa para despojar casacos de couro, macacões e mais umas tantas peças da complicada indumentária de um piloto de combate.

A tudo isto o americano do P-47 do STAND-BY assistia com interesse visível, porém controlado, de guerreiro sempre preparado para enfrentar situações pouco rotineiras. Logo que o Canarinho terminou o seu striptease e encetou, de cócoras, a solução para os seus males, o americano, já com visão completa do problema, retomou sua leitura, acompanhando de rabo de olho o prolongado período de concentração do desditoso colega de armas.

Vencida a primeira etapa do problema, o Canarinho, já mais animado, buscava a solução para a segunda — a higiênica. O americano, percebendo o dilema, gritou-lhe:

— Hold it! (aguarde)

... e continuou lendo uma carta, dessas femininas, de papel rosa com monograma e perfuminho. Ao fim, deu-lhe ainda uma cheiradinha ou, quem sabe, um ósculo, e gritou para o Canário:

— Hei!

E foi então que, num rasgo de solidariedade e de altruísmo, sacrificou aquela delicada mensagem de amor, reduzindo-a a uma bolota e lançando-a ao Canarinho, para que este pudesse concluir, honrosa e cabalmente, sua missão ingrata.

 

Texto escrito por Alberto Martins Torres, piloto brasileiro com o maior número de missões na Itália.