Domingo, 26 de Março de 2017
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22 DE ABRIL DE 1500, Epopéia dos navegadores portugueses, quando as caravelas de Pedro Alvares Cabral fundearam na baía de Porto Seguro, dando ensejo a Pero Vaz de Caminha a fazer ciente a El Rei, Dom Manuel, o Venturoso, informando-o de que “nesta terra tudo dá”, profecia que vem sendo cumprida “sine qua nom”, inclusive, de gente brava, haja vista, a história pátria.

Outro 22 DE ABRIL 445 anos depois aconteceu a Odisséia de um grupo de gente natural do Oiapoque ao Chuí, ou seja, o dia do grande remate dos “Senta a Pua”, que sol! O Comando de ULISSES, natural das bandas do Chuí, que na pia batismal recebeu o nome de NERO MOURA, Major Aviador, incuto militar, diplomata nato, guerreiro lúcido e prudente, que atravessou a linha do equador com a sua gente descendente de gama européia e dos tupiniquins e a conduziu até vitória final contra as facínoras nazi-facistas no território e céus da Itália, dando o ensejo unidade sob seu Comando, apelidada em inglês de ”First Brazilian Fighter Squadron”, de ser elogiada pelos Altos Comandos da Força Aérea Aliada no Teatro de Operações de Guerra do Mediterrâneo, cujos feitos se acham registrados nos anais de todas as Forças Aéreas do Planeta, o que levou o Congresso dos Estados Unidos da América a autorizar o seu governo a outorgar a medalha “Presidential Citation for Extraordinary Heroism” ao 1º Grupo de Aviação de Caça, do Brasil.

Na minha opinião, o Congresso dos Estados Unidos se pautou pela outorga da referida medalha, na excelência do elogio que a 12ª Força Aérea externou-se ao desligar o Grupo de Caça brasileiro do seu organograma, pelo término da guerra:

“Os avestruzes voltam ao Brasil com a sua missão cumprida e bem cumprida”.

Sua insígnia na carenagem do motor de todos aviões P-47-Thunderbolt, o First Brazilian Fighter Squadron, o “avestruz”, obteve para a sua Unidade no Teatro de Operações de Guerra do Mediterrâneo uma FAMA JAMAIS ALCANÇADA POR QUALQUER UNIDADE DA FORÇA AÉREA AMERICANA, sob cujas ordens lutaram os valorosos brasileiros.

Uma homenagem especial ao pessoal de apoio do 350th Fighter Group, Unidade que congregava os 4 esquadrões de P-47 (345th, 346th, 347th e 1st Brazilian) se acha registrada numa placa no Museu da Força Aérea Americana, em Dayton, estado de Ohio, o que muito me envaidece por ter pertencido ao efetivo do pessoal de terra do “First Brazilian”, e com permissão do David Rosal Gabriel (um dos “supply boys” do Sgt. Hotir) transcrevo-a com a sua tradução:

“VOCÊ deu tudo de si para manter os nossos Thunderbolts voando, missão após missão;
VOCÊ preparou nossos P-47 danificados em missão de guerra, com a perícia e a engenhosidade, mantendo-os em condições de vôo durante 24 horas por dia;
VOCÊ esperou em silêncio enquanto nossos pilotos estavam em missão sobre o território inimigo;
VOCÊ brindava nossa vitórias;
VOCÊ aplaudia quando nossos pilotos retornavam e chorava quando eles não retornavam;
Nós, pilotos de Caça do 350th Fighter Group, nunca os esqueceremos!”

O fato histórico que se levou às autoridades da Aeronáutica a consagrar o dia 22 de abril, como o Dia da Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira, se deu num domingo, com a primeira decolagem à 8:30 horas, de 4 aviões e à segunda às 8:40 horas e assim sucessivamente, até à 18:00 horas, a última, também de 4 aviões, perfazendo o total de 44 saídas para operações de guerra, quando o Grupo só dispunha de 23 aviões e 22 pilotos disponíveis.

Sobre a disponibilidade dos aviões, esse fato se consubstanciou pela identidade de objetivo do pessoal de apoio aéreo, o qual pela minha ótica, como “engineering clerk”, releve-me ressaltar a equipe de manutenção sob à égide do Tenente Jaime Flores Pereira (Engineering Officer), que com o seu caderninho nas mãos anotando todos os “status” dos aviões, azucrinando os ouvido dos mecânicos cujos aviões não se achavam disponíveis par vôo, confabulando com o Sub Oscar Hertel (Inspetor) e Sgt Gondim (“Line Chief”) e escutando as providências tomadas ou que iam ser tomadas pelo Sgt Prediliano (Chefe do Hangar) para revisões de 200 horas e outras panes que tiravam os aviões da pista. Prediliano, justiça seja feita, dispunha de um pedaço da nata dos técnicos da FAB, como Sargentos Koerbel, Regis, Contente, Caetano, Vital (apelidado de “boy Vital” pela sua idade em relação aos outros) Homero, Aquino, Bechara, e uma seleção de cabos e soldados, donde se sobressaia o “pau para toda obra”, o Cabo Brito.

O 22 de abril, domingo, muito embora tenha sido um longo dia de trabalho sem nada a acrescentar aos outros domingos, a não ser a continuidade de um exausto sábado, que o expediente da pista havia terminado cerca das 21 horas, quando o caminhão “pilotado” pelo Sgt Dioracy chegou ao acantonamento, trazendo o “Belly Tank” (Sgt. Antônio de Oliveira) e os Sgts. Thadeu Emilio, Chicó. Cláudio, os principais “alfaiates” que remendavam os buracos das carenagens dos aviões deixados pela artilharia do inimigo. Por incrível que pareça, esses tupiniquins representavam o termômetro da disponibilidade dos aviões para dia seguinte. Enquanto eles se encarregavam das plásticas e da maquiagem, os outros se movimentavam, ao mesmo tempo, pelas Esquadrilhas. O Sgt. Setta tomava conta da “A” até o dia que foi substituído pelo Sgt Queiroz, por regresso ao Brasil. Essa esquadrilha contava com excelentes “Crew Chiefs” como os Sgts. João Rodrigues, Winitskowski, Assunção, Argollo. A esquadrilha “B” tinha como chefe o Sgt Jean Louis Bordon. A “C” era chefiada pelo incansável Sgt Wenceslau Bálsamo contando para o desempenho da sua missão como Chefe de Equipe Sgts Fazani, Lima, Wagner, Bandeira, Brandão. A esquadrilha “D” foi chefiada pelo Sgt. Militino, até quando o Sgt. Gondim retornou ao Brasil e, por decisão consensual, Militino assumiu as funções de “Line Chief". Como ”Crew Chief” na esquadrilha “D”, só me recordo do incansável Sgt. Cansado que tinha como auxiliar o “boy" Octávio. As funções de “Flight Chief” da “D”, foi assumida pelo Sgt. Robson Saldanha. Como Chefes de Equipagens da manutenção tem muitos outros que a memória não conseguiu guardar as esquadrilhas que eles atuavam, mas, para minha satisfação, os nomes de Willer Pérsio, Antônio Vitalino Sobrinho, Antônio de Oliveira Varela, José Varela, Severino Barbosa, Pelágio, Paiva, Cantisani, Reinaldo Konrath, Norton Marinho, Sgt. Garcia Fojaz cuidava dos instrumentos de bordo.

Na Seção de Armamento, o Suboficial João Pereira Leite chefiava uma equipe de abnegados como o Sgt. Newton, o “Camburão", com a sua “Ordenance”, Sgt. Goulart Ferreira, (o “Gugú”, pau prá toda obra), o Braga, Sérgio Borges, Carlos Fernandes, Albino e o “Big” (S1-Aldir Agostini da Costa), que às vezes usava o “lombo” para colocar bombas no “racks” quando faltava a viatura apropriada por algum motivo. Esses arroubos comumente aconteciam, mormente no setor de armamento que, após a chegada dos aviões das missões, checavam as metralhadoras e as municiavam, esvaziava as câmaras fotográficas, as reabasteciam de filmes virgens para registrar o cumprimento das missões que, mais tarde, serviriam para análise do Ten. Miranda Correa (Oficial de Informações). A equipe de Comunicação, tendo à frente Baldir Calado, Oriel Martuscelli, Vicente Silveira, Valadão e outros só deixavam as freqüências dos "jambocks", em paz, quando a cristalinização dos sons afluíssem sem interferências estáticas. Enquanto isso, Júlio Jacoboski, Aldo, Nazareth e caterva, com os seus “trucks” da “Refueling Unit”, reabasteciam todos os aviões, tudo isso, para deixar as armas prontas para que os nossos heróis cumprissem a sua parte no dia seguinte. E, assim, estava na hora de ir prá “casa".

A guerra no “front” da Itália terminou no dia 29 de abril, burocraticamente, a 2 de maio e a 8, terminava de todos lados europeus, e dai prá frente, a nossa vontade era de regressar ao Brasil, mas, sempre assuntos administrativos que correm os ditos trâmites legais e fomos ficando em Pisa, elogios daqui, acertos sentimentais e casamento de alguns dali viagens de outros, entrevistas, que não poderiam faltar e através do legendários “Star & Stripes” órgão de divulgação do Exército dos Estados Unidos durante a guerra, entrevistou alguns componentes do 1º Grupo de Caça e entro eles o nosso “Line Chief” Militino Vieira de Paiva, a qual transcrevemos:

“A nossa experiência na Itália foi interessante, mas todos nós estamos felizes por regressar e rever nossos famílias e amigos. Nós que trabalhamos nos aviões para mantê-los disponíveis, o fazíamos com satisfação, cumprindo nossas obrigações, porque sabíamos, ao ver os aviões voltarem com grandes danos causados pela artilharia antiaérea, que nossos pilotos estavam cumprindo com o seu dever. Agora, quando tudo terminou, asseguro que me agradaram alguns aspectos desta vida em campanha como, a boa camaradagem, os ensinamentos e as novidades que vimos, entretanto, estou certo que me sinto Imensamente feliz por ter que regressar ao Brasil”.

Texto escrito pelo Veterano Aloysio Guilherme de Souza e gentilmente cedido por ele para este site.