Sábado, 18 de Novembro de 2017
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O Interrogatório

Chegamos em Frankfurt pela manhã e, nos deslocamos a pé para uma prisão, (tipo campo de concentração), que era o Centro de Interrogatório da Força Aérea Alemã.

No deslocamento a pé pela cidade de Frankfurt embora já tivéssemos visto muita destruição desde a nossa saída de Bolzano, o que estávamos vendo agora era devastador, pois ao longo de nossa marcha, nada existia, somente escombros. Na época, o que estávamos vendo não nos comoveu, apenas nos deu satisfação.

Logo que chegamos ao Centro de Interrogatório, mandaram que ficássemos nus e, revistaram nossas roupas e fomos fichados como fossemos tirar carteira de identidade. Nossas roupas foram desinfetadas e, quando me devolveram ficaram com a calça da roupa de vôo americana, que era forrada de pêlo por dentro. Este confisco, retirou-me um abrigo importante, que muito me fez sofrer, pois estávamos em pleno inverno na Europa. O tratamento dos guardas alemães deste local era bem diferente do que havia recebido dos combatentes no teatro de operações da Itália. Estes não gritavam e nem ameaçavam com suas armas e os do Centro de Interrogatório, neste primeiro contato, sempre estavam com as armas apontadas. Pode ser que esta recepção, fosse para nos amedrontar para os interrogatórios que viriam posteriormente. A cela em que fui colocado tinha uma cama, um colchão, uma cadeira e uma mesa. No dia seguinte a minha permanência neste local, fui levado para o interrogatório. O oficial interrogador, começou a falar em inglês e, como fiquei impassível, demonstrando que não estava entendendo nada, depois de algum tempo na tentativa de diálogo, entrou um alemão que se dirigiu a mim falando um excelente português. Disse que era capelão, e havia morado na Bahia durante 16 anos.

Através do padre, o interrogador passou a fazer suas perguntas. Quando o padre repetia a mesma , eu dizia o meu nome, posto e número de identificação. Esta cena se repetiu muitas vezes, nos meus quatorze dias neste Centro de Interrogatório. As perguntas feitas pelo padre, sempre se referiam , a unidade a que pertencia, quantas unidades possuíam no T.O., qual a tática empregada nos ataques, qual o nome do comandante. A vida neste local se resumia a comer uma vez por dia, uma espécie de sopa, que quando era entregue já estava fria, formando uma nata na superfície. Como só tinha esta alimentação, não tinha outro jeito e o negócio era comer. A dor no estômago por fome e o isolamento, mexe com o moral da pessoa, porque o pensamento começa a recordar a família que havia ficado no Brasil e os amigos em Pisa. Resolvi que tinha de reagir, evitando pensar no que estava me atormentando. Passei a reconstituir todas as missões de combate, que havia participado, bem como as destruições que havia visto nos meus deslocamentos pela Alemanha. Passei a me sentir melhor, após este procedimento. Para abater o moral do prisioneiro, havia um procedimento, que nas aulas em Tarquinia tinham mostrado. Este procedimento consistia em aumentarem o aquecimento da cela e, para agüentar o calor, ficava nu. Depois reduziam ou cortavam o aquecimento, de modo, que era obrigado a me vestir, passando a sentir frio.

No cordão da botina, passei a dar nó, para assinalar os meus dias naquele local. Quando me encontrava pelo oitavo dia e, já tendo ido ao interrogatório algumas vezes, o padre interprete perguntou-me se eu conhecia o Tenente Motta Paes. Fiquei calado, porque depois de dois ou três interrogatórios, não dizia mais meu nome nem posto e nem identificação, porque o interrogador e o padre já estavam cansados de saber e, eu já estava de saco cheio de repetir a mesma coisa. Então disse-me o padre que eles (alemães), já sabiam tudo sobre a minha unidade e já que não queria falar, iria ficar na cela muito tempo, porque o Ten. Motta Paes, não dizia nada e havia ficado muito tempo na cela. Esta notícia em vez de me abater, aumentou minha resistência à aquela situação, porque se o Motta Paes havia passado muito tempo naquela vida eu também, seria capaz de agüentar a fome, o isolamento, o frio, o calor e a presença do interrogador e do padre. Na realidade o Motta Paes levava uma vantagem sobre minha pessoa, porque mesmo entre os amigos, ele já era um silêncio absoluto, sendo que por causa de sua pouca vontade de falar, nós o chamávamos de "Moita Paes".

Após este amigável papo, o padre me perguntou se eu conhecia a Gestapo, como fiquei calado, mandaram-me para a cela.
Não me recordo se foi no dia seguinte, mas pela manhã apareceu o padre e me anunciou que eu iria para a Gestapo, mas que não iriam me maltratar e que seria apenas interrogado.

Escoltado por dois soldados, saí da cela e fui para a Gestapo. Este local não devia ser muito longe do Centro de Interrogatório, porque a caminhada não foi muito longa. Lembro-me que após passar o portão de entrada, não vi mais militares, mas somente civis. Fui para uma cela e lá fiquei até o dia seguinte. Pela manhã um civil abriu a porta e mandou que eu saísse. Comboiado por ele levaram-me para uma sala e lá se encontrava o padre e um outro alemão.

O interrogatório foi político, com perguntas desta natureza; o que eu sabia de comunismo, que em poucos anos os aliados estariam em guerra contra o comunismo, qual minha opinião sobre a Alemanha, se eu achava que a Alemanha iria ganhar a guerra.

Como eu estava calado, o padre em português fez um doutrinamento contra o comunismo, mas sempre dirigido pelo outro civil alemão. A minha permanência nesta sala não foi muito longa, lembro-me que sai dai acompanhado por dois civis e voltei para o Centro de Interrogatório e, acredito que em tempo de pegar o almoço, porque não me recordo de ter comido neste local da Gestapo.

Um ou dois dias após ao meu regresso ao Centro de Interrogatório, fui levado novamente para a presença do interrogador e de meu companheiro padre.

Neste interrogatório, caí numa armadilha. Perguntaram-me se conhecia o Ten. Medeiros, pois ele pertencia a minha unidade. Como fiquei calado, o padre lastimou que o Ten. Medeiros ainda jovem, tivesse morrido. Instintivamente, disse que o Ten. Medeiros não havia morrido, porque a rádio de Milão havia informado que ele estava prisioneiro. Tendo em vista a minha resposta, interrogado novamente, confirmei que o Ten. Medeiros pertencia a minha unidade. O oficial interrogador abriu um envelope e, me mostrou um ticket do cinema Thunderbolt e uma carta do seu pai ou noiva e, o "Dog Tag". O Ten. Medeiros foi abatido na Itália e estes pequenos pertences foram chegar ao Centro de Interrogatório em Frankfurt, porque somente neste local poderiam ter valor, como realmente serviram para a minha falha. Realmente, é uma demonstração da eficiência de uma organização militar, contrastando com o que nos aconteceu, quando já há muito tempo no Brasil, fomos descobrir nossos presentes de Natal de 44, ainda encaixotados em nosso depósito no Rio de Janeiro.

O interrogador me entregou os pertences do Ten. Medeiros, para que fizesse chegar as mãos de seus familiares, quando regressasse ao Brasil. Para que em minhas andanças pela Alemanha, não me tomassem os pertences entregou-me um documento autorizando-me a permanência dos mesmos comigo. Posteriormente, todas as vezes que fui revistado, devolveram-me os pertences por causa do documento do interrogador alemão.

Quando completava meu décimo quarto dia de cela, levaram-me para o pátio e lá haviam muitos prisioneiros. Fiquei sabendo que iríamos para o interior da Alemanha, e que a causa era que os aliados tinham atravessado o rio Reno e ameaçavam Frankfurt.