Quarta, 22 de Novembro de 2017
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O Campo de Prisioneiros

Embarcamos em um trem a tarde e viajamos a noite toda. Pela manhã desembarcamos numa pequena estação e, seguimos a pé para um outro campo de prisioneiros. Quando chegamos nesta nova moradia, nos tiraram a roupa e, revistaram-na minuciosamente. Era um campo de Distribuição de Prisioneiros.

Na entrada deste campo havia uma tabuleta bem grande, informando aos prisioneiros que não tentassem a fuga, lembrando-nos que numa tentativa havida num campo de prisioneiros da Silésia, diversos tinham sido mortos.

Neste local aproximou-se um capitão aviador, dizendo que me conhecia de Pisa, pois ele pertencia ao esquadrão 347 da Força Aérea Americana. Haviam muitos prisioneiros Canadenses e não sei porque, achavam que eu brasileiro, devia saber falar francês. Entre o meu francês e o inglês, preferia responder suas indagações em inglês.

Como brasileiro, era uma ave rara no meio dos ingleses, americanos, canadenses, polacos, etc. O alemão, comandante do campo, após a revista que era diária, aproximou-se de mim e disse que um outro brasileiro havia passado por lá, e cá comigo, logo identifiquei o Motta Paes e, fiquei esperançoso de encontrá-lo mais adiante, pois sabíamos que uma permanência neste local não seria longa.

Este pequeno campo de concentração, comparado com o confinamento do Centro de Interrogatório, era um paraíso, porque podia me locomover, ver pessoas que não eram os carcereiros alemães, ou melhor, parecia que tinha obtido minha liberdade. Nesta altura dos acontecimentos a alimentação, já era secundária, isto é, não sentia aquela fome angustiante do início, já estava acostumado.

Na permanência neste campo, duas coisas ficaram bem gravadas, uma trágica e outra ou outras de alegria, contentamento e satisfação.

A trágica se referia a um sargento da Força Aérea Americana e, que assisti, porque estava próximo do local do ocorrido. Eu e um oficial canadense, estávamos conversando na porta da barraca, quando vimos que um prisioneiro já tinha ultrapassado a primeira cerca de arame farpado e se esgueirava para passar pela seguinte, que limitava a área do campo. Assim que passou a última cerca de arame farpado, levantou-se e saiu correndo. Acredito que sua liberdade não teve mais que 50 metros porque de duas torres, as metralhadoras começaram a atirar e, em seguida ele tombou. Simultaneamente, com os disparos das metralhadoras, as sirenes deram o alarme e soldados alemães saíram com seus cães atrás do fugitivo. A morte deste prisioneiro foi uma brutalidade e, veio confirmar o cartaz de alerta, que havia na entrada do campo. Todo o prisioneiro tem o direito de tentar a fuga e, esta tentativa de fuga aconteceu pela manhã, bastava o alarme das sirenes, para que os guardas alemães com seus cães aprisionassem facilmente o fugitivo, não havendo a necessidade daquele fuzilamento. Acredito que o sargento americano, tivesse perdido completamente o controle, porque com a claridade do dia e com uma área limpa circundando o campo, era impossível não ser visto pela torres guarnecidas que envolviam os campos dos prisioneiros.

A parte alegre desta minha estadia, se relaciona com a aparição freqüente sobre o campo, dos caça P-51- Mustang, sendo que em duas ocasiões, atacaram objetivos nas proximidades. Na nossa situação estas cenas aéreas, eram confortantes. Deste campo saímos a tarde e após um trajeto a pé, chegamos na pequena estação que havia desembarcado anteriormente. Embarcamos no trem, e muitos prisioneiros mostraram-se apreensivos, porque não tinham visto sobre os tetos dos vagões, o emblema da Cruz Vermelha. A falta desta identificação, poderia acontecer da aviação aliada atacar o trem. Nesta hora, surgem estórias de prisioneiros mortos, pela aviação aliada, em deslocamento, sem a identificação da Cruz Vermelha.
Passamos duas noites e um dia viajando, porque o trem parava muito, esperando em desvios outros trens com militares alemães e material bélico.

Pela manhã chegamos numa estação de estrada de ferro intacta. Pelo nome da estação ficamos sabendo que estávamos na cidade de Nuremberg. Em nosso deslocamento a pé para o campo de concentração, atravessamos parte da cidade e ficamos surpresos porque a estação da estrada de ferro e a cidade estavam intactas.

Este campo de concentração era enorme, porque andamos muito entre cerca de arame farpado e, prisioneiros por trás das mesmas. Num prédio da administração, em grupo de dez a quinze prisioneiros, mandaram que nos despíssemos e passaram a revistar as roupas. Como era inverno e, o aquecimento se existisse na sala, era pouco, estando sem roupa estava sentindo um frio desgraçado. Como já tinha sido revistado muitas vezes, soltei um palavrão contra aquela situação. Mas tive poucos segundos de satisfação, porque um soldado alemão que estava perto, meteu a metralhadora na minha barriga e com aquela cara de brabo disse muitas coisas em alemão, que não entendi. Mas compreendi, assim como ele havia entendido meu palavrão em português. Esta foi mais uma lição que aprendi , que na situação que me encontrava, a resignação era um fator importante para a sobrevivência.

Depois deste incidente, um oficial alemão que estava tomando nome dos prisioneiros, perguntou-me com que nacionalidade gostaria de ficar, logicamente, respondi que era com os americanos. O campo de concentração era dividido em diversas áreas, chamados blocos. Em cada bloco ficavam uns duzentos prisioneiros no máximo, sendo em princípio todos da mesma nacionalidade. Diziam que neste campo de concentração haviam dez mil prisioneiros das seguintes nacionalidades: americanos, ingleses, canadenses, polacos, sul-africanos, russos, iugoslavos etc.
A construção dos alojamentos era de madeira e as camas tipo, beliche só tinham o estrado de madeira.

Na primeira noite neste campo, sofremos apreensões, porque a cidade de Nuremberg que, pela manhã tinha me causado surpresa, porque não havia destruição, começou a ser atacada pela R.A.F.. Como o campo ficava próximo a cidade e, estávamos amontoados em construção de madeira, qualquer erro no ataque a cidade, poderíamos receber bombas também. O ataque levou mais de duas horas, que foram bastante longas, porque a barraca sacudia com as explosões das bombas, que diziam os prisioneiros mais experientes, serem bombas de 6 toneladas, que somente a RAF usava.
Sem haver pânico entre nós, o comandante da barraca, um major americano, mandou abrir as janelas, porque a vibração poderia quebrar os vidros. Depois de decorrido algum tempo do início do bombardeio, os incêndios que lavraram na cidade, iluminaram a área com tal intensidade que, a claridade atingiu o campo de concentração. Junto a janela com outros prisioneiros, assistia aquela cena extasiado, por ser a primeira vez que via algo semelhante, e também, por ver alguns bombardeiros iluminados pelos faróis da defesa antiaérea e algumas bolas de fogo, no ar, que representava um avião atingido, bem como, alguns pára-quedas.

No dia seguinte pela manhã, ainda havia incêndios na cidade, quando começaram a chegar em esquadrilhas de três aviões os B-17 americanos, que passaram a atacar a cidade. Como as bombas utilizadas eram de menor poder, o barracão de madeira não vibrava como na noite anterior.

Este ataque demorou horas e muitos B-17 foram abatidos. Como o dia estava sem nenhuma nuvem, fora das barracas, assistíamos o ataque de camarote e nos expandíamos gritando de alegria, quando um B-17 era atingido e víamos os pára-quedas da tripulação se abrirem no ar e, os prisioneiros que conheciam o numero de tripulantes do B-17, ficavam contando os pára-quedas abertos, para verificar se todos tinham conseguido abandonar a aeronave, que se incendiava, ou descia em pique. Foram duas noites e três dias de ataque a cidade de Nuremberg.

Não me recordo se foi no segundo ou terceiro ataque da aviação americana, que o céu estava 8/8 encoberto. Quando iniciaram o ataque houve preocupação entre os prisioneiros, principalmente para os pilotos de caça, que desconheciam a eficiência do auxílio do Loran, para ataque sem ver o objetivo, consequentemente, nossa apreensão e temor é que aquelas salvas de bombas, viessem cair sobre nós. Com o céu 8/8, não víamos os aviões serem atingidos, mas víamos pedaços dos aviões e pára-quedas, quando atravessavam a camada de nuvens.

A minha permanência no campo de concentração foi mais ou menos de um mês. Tínhamos duas refeições por dia, pela manhã um líquido preto, amargo, mas quente e uma fatia de pão preto, que era nosso café, e depois num horário que não sei precisar, recebíamos quatro batatas cosidas. As batatas eram de um bom tamanho que com um mês de dieta forçada, permitia que não comesse tudo de uma vez, guardando sempre um pouco para comer quando sentisse a dor no estômago. Como muitas vezes, após todos terem recebido sua ração, sobravam batatas no panelão, alguns prisioneiros recebiam mais uma batata. Como a distribuição das batatas era feita por prisioneiros, havia um controle pela numeração das camas, para saber quais seriam os premiados naquele dia. O serviço devia ser bem feito, porque nunca ouvi reclamação de algum prisioneiro, em ter sido passado para trás na distribuição do excesso de batatas.

Nas horas dos ataques da aviação contra a cidade de Nuremberg, os católicos rezavam individualmente, mas os protestantes se agrupavam e um liderava os cânticos religiosos. Como desconhecia a religião protestante, achei muito bonito o espírito de congregação entre eles.

Durante a permanência neste campo, dormia mais durante o dia e cochilava durante a noite, porque tinha medo de congelamento dos pés. Não sei qual era a temperatura a noite, mas sentia muito frio, consequentemente, andava pelo alojamento para fazer a circulação sangüínea nos pés. Não sei se todos os prisioneiros faziam isto a noite, mas muitos adotavam este procedimento. Como após escurecer era proibido sair do alojamento, havia um tonel para umas necessidades e no dia seguinte através de uma escala , levávamos o referido para despejar na fossa. Esta vida no campo de concentração, comparada com a vida de cela em Frankfurt, era uma delícia, porque não existia o enclausuramento entre as quatro paredes e nem seus pensamentos para lhe atormentar.

A vida no campo era uma rotina, constituída da chamada pela manhã, do café e da outra refeição. A chamada era diária, pela manhã e, fora da barraca, o que não era confortável devido ao frio encima da neve.

Algumas vezes, porque alguns prisioneiros respondiam a chamada do nome de uma maneira que não agradava ao capitão alemão, ele como castigo fazia uma segunda chamada e ainda resolvia contar os prisioneiros e tudo isto feito de uma maneira muito lenta. Quando isto acontecia, quando voltávamos para a barraca, os causadores do transtornos e, consequentemente, maior permanência no frio, eram xingados. A rotina desta vida só era quebrada, quando alguém através da vidraça, informavam que estavam chegando mais prisioneiros. Nesta situação, podia estar caindo neve e, fosse qual o frio que estivesse fazendo, eu abandonava a barraca e me dirigia para a cerca de arame farpado, para ver se via algum companheiro do Grupo de Caça, e ainda em português gritava perguntando se havia algum brasileiro.

Era tamanho a minha vontade de rever um dos amigos do Grupo, que sentia um desânimo, quando me certificava que não havia nenhum brasileiro naquela leva de novos prisioneiros.