Sábado, 18 de Novembro de 2017
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Um Rosto Amigo

Um dia estava perto da cerca que dividia de um outro bloco de prisioneiros, quando ouvi alguém em inglês chamar brazilian. Olhei através da cerca e lá estava o Major Dow, que comandava um esquadrão americano de P-47 e, cuja minha primeira missão de guerra, tinha sido feita na esquadrilha comandada por ele.

Depois de alguns dias neste campo, aproximei-me do capitão alemão e no meu inglês, perguntei-lhe se existia em outro bloco, algum prisioneiro brasileiro, porque tinha esperança de localizar o Motta Paes. Qual minha surpresa, quando o alemão em português, informou que eu era o único brasileiro nos dez mil prisioneiros. Este Capitão tinha vivido muitos anos no Rio Grande do Sul.

Com a chegada quase que diária de prisioneiros, as nossas três barracas de madeira já estavam superlotadas, então os alemães armaram algumas barracas de lona, que serviram de habitação para novos prisioneiros. Com o aumento de prisioneiros em nosso bloco, passaram a fazer parte do mesmo outras raças tais como: poloneses, australianos, neozelandeses, sul-africanos, etc.

Embora já estivesse me acostumando com a fome, um dia um oficial polonês contou-me que na lata de lixo, havia muitas batatas estragadas, mais que ainda existiam pedaços aproveitáveis e que seria possível reconstituir de diversas batatas estragadas, uma ou duas batatas. Quando estávamos procurando no lixo as batatas, passou o coronel americano que era o responsável pelo nosso bloco. Chamou-nos e nos repreendeu pelo que estávamos fazendo. Disse que dificilmente morreríamos de fome com uma ração alimentar, mas que os alimentos deteriorados poderiam nos provocar um mal qualquer, com conseqüências graves.

Senti-me envergonhado por ter sido chamado a atenção por um oficial estrangeiro e, serviu-me de lição até minha libertação.
Um dia minhas gengivas começaram a sangrar e após a chamada da manhã, falei com o capitão alemão sobre este fato.
Neste mesmo dia, fui com outros prisioneiros, escoltado até a enfermaria, como não tinha remédio apropriado para o meu mal, que depois vim a saber, ser escorbuto, arranjou-me um pacotinho de sal, para esfregar duas vezes ao dia nas gengivas.. Este tratamento de sal para escorbuto, não curou o mal, mas acredito que ajudava a cicatrizar as feridas. Do escorbuto fui curado em Pisa, após minha libertação.

Quando se aproximava o fim do mês de março, chegaram no campo de concentração uns caminhões com a insígnia da Cruz Vermelha Internacional. Estes caminhões traziam caixas de alimentos, enviados pela Cruz Vermelha dos países envolvidos na guerra. Os caminhões vinham da Suíça. Na realidade, a maioria dos pacotes eram enviados pela Cruz Vermelha Americana e possuíam : bolachas, leite em pó, chocolate, presuntada, carne enlatada, cigarros, etc.

Normalmente, uns destes pacotes era distribuído para dois ou três prisioneiros e, até minha libertação, acredito que tenha recebido umas três ou quatro vezes, este reforço de alimentação.

Quando se aproximou o fim do mês de março, o Coronel americano que comandava nosso bloco, informou que deveríamos ser evacuados do campo de concentração., devido ao avanço das tropas aliadas. Como esta viagem seria longa e a alimentação incerta, recomendava que de uma última ração da Cruz Vermelha, fizéssemos uma mistura do leite em pó, chocolate e bolachas. Tudo isto amassado e misturado com água, faria uma massa compacta e nutritiva. Durante nosso deslocamento para Musberg, esta paçoca ajudou-me muito para complementar a pouca alimentação recebida dos alemães.
Quando já tínhamos recebido ordens para o nosso deslocamento que seria neste dia, chegou uma nova leva de prisioneiros e, como sempre fazia, dirigi-me para a cerca de arame farpado e, qual não foi minha alegria, quando no meio daquele bando recém chegado, estava o velho serião Correia Neto.

Infelizmente, trocamos poucas palavras, apenas informando que estavam evacuando o campo e que nos deslocaríamos naquele dia.

Só vim a encontrar o Correia Neto, quando fomos libertados em 29 de abril, portanto, quase um mês depois, porque nosso encontro deve ter sido nos primeiros dias de abril.