Quinta, 23 de Novembro de 2017
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O Translado

O Cabo, que estava ao telefone, ao ouvir o barulho da bofetada, largou o telefone com muita raiva, tirou a pistola do coldre e foi em direção aos dois Tenentes gritando com eles em alemão.

Os italianos tentaram argumentar, mas o Cabo estava realmente indignado. Disse algumas palavras para os Tenentes e como eles não se moveram, deu três ou quatro tiros em direção aos seus pés. Com os tiros os Tenentes se assustaram e saíram correndo da casa.

O Cabo Shimidt, com o rosto todo vermelho, virou-se para mim e disse em um italiano misturado com alemão "Italiano em frente não pum pum, qui pum pum brasiliano, pum pum paisano, pum pum tuti, em frente corriri."

Depois que os tenentes sumiram e o Cabo se acalmou ele disse que seu comandante havia mandado que ele me levasse junto com o comboio que iria partir ao anoitecer e que pela manhã me levasse para um determinado hospital.

Assim que a noite chegou eles colocaram a minha maca no chão de um pequeno caminhão e de cada lado nos bancos laterais, iam sentados cinco soldados.

A viagem foi bastante acidentada pois as estradas estavam muito danificadas e em vários momentos aviões aliados passaram sobre o comboio obrigando os motoristas a sair da estrada para procurar abrigo.

As dores que eu sentia eram bem fortes mas o medo de morrer pelos aviões aliados era maior e me mantinha acordado atento.

Em determinado trecho, quando estávamos fora da estrada, o soldado que estava mais próximo da minha cabeça, se abaixou e perguntou se eu falava francês. Tendo respondido que sim, ele me disse que era Russo, que havia sido feito prisioneiro no inicio da invasão da Russia e que posteriormente, em troca de um melhor tratamento havia concordado em lutar pelos alemães.

Pediu que eu lhe sugerisse o que devia fazer, pois sabia que a guerra estava no fim e que os alemães estavam derrotados e que se voltasse para Russia seria morto. Disse a ele que realmente o fim da guerra estava por poucas semanas e que o único conselho que eu podia dar era para que ele procurasse trocar o uniforme por roupas civis, se escondesse em algum lugar e tentasse se fazer passar por refugiado de guerra , sem nunca mencionar a sua nacionalidade.

Algumas horas depois, em plena madrugada, ouvi alguém, próximo do nosso caminho perguntar, em perfeito português; brasileiro aonde você está?

Avisei ao Russo que alguém estava me chamando e ele saiu do caminhão, voltando logo depois acompanhado de um Capitão da LUFTWAFFE. O capitão se aproximou de mim, me deu um abraço e disse que também era brasileiro, de Blumenau, no Estado de Santa Catarina.

Ele me contou que quando tinha 18 anos, em 1938 o seu pai, que era alemão, mandou-o para Alemanha a fim de estudar. No ano seguinte estourou a guerra e ele foi convocado. Escolheu a aviação e saiu piloto de Caça. Participou de variar missões, inclusive da batalha da Inglaterra. Quando o Brasil declarou guerra às nações do eixo os seus superiores acharam que ele não mais merecia confiança e o tiraram do vôo e o designaram para uma unidade de canhões antiaéreos.

Perguntou-me o que eu achava que ele devia fazer e eu dei a ele o mesmo conselho que dera ao Russo. Disse a ele que a divisão brasileira estava próxima daquela região e que ele, em roupas civis poderia aguardar a chegada dos brasileiros e procurar obter alguma assistência, sem dizer que havia lutado pelos alemães.